Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Aquiles

Cultura

Crônica do Menalton

Aquiles

por Menalton Braff publicado 25/09/2014 11h32
Era eu aparecer no quintal, lá vinha o galo correndo para o meu lado, com as suas asinhas levantadas
SXC
Galo Aquiles

O galo era meu amigo, mas me tratava como se fosse meu patrão

Criança ainda, fui amigo de um frango. Não sabia bem o que era amizade, mas frango eu sabia bem o que era. E aquele, considerava meu. Tomei conta dele, com desvelos de mãe, desde a primeira vez que vi o pintinho amarelo, porque era especial. Muito especial. Também não sabia o que era especial nem por que aquele pintinho amarelo era especial. Mas ele era. Tenho certeza disso.

Aprendi a fazer um ruído imitando o chamado da galinha, e as primeiras quireras que o Aquiles comeu foram dadas a ele por mim. Bem, o meu frango se chamava Aquiles apesar de não ter o bico adunco. Acontece que ele era a cara de um colega de escola de quem eu gostava muito. Foi, assim, uma espécie de homenagem. Seu nome.

Mais tarde, já empenando, o Aquiles piava atrás de mim pedindo comida. Eu sentava no chão e ele se empoleirava nas minhas pernas numa intimidade de velhos amigos. Só me largava quando se recolhia com a galinha choca para dormir. Bem, é claro, ele também não me acompanhava para a escola. E outras ocasiões em que ficava com sua família. Mas era eu aparecer no quintal, lá vinha o Aquiles correndo para o meu lado, com as suas asinhas levantadas. Aquilo era uma amizade que espantava todo mundo.

Com pouco mais de seis meses, meu amigo começou a cantar. Nas primeiras vezes, ele produziu um som ridículo, uma coisa mal saída do fundo da garganta, um grito curto e rouco. E era assim que todos os dias vinha me encontrar. Chegava na minha frente, entortava o pescoço, abria o bico e me cumprimentava. Nesta época, quando já andava batendo asa para frangas da sua idade, o Aquiles praticamente só comia milho da minha mão. Ele também ciscava, caçava bichinhos, procurava sementes, mas milho, que é bom, só da minha mão.

Ele vinha, todo sestroso, me encarava com seu olhinho redondo e brilhante, emitia um cocorocó, última sílaba prolongada, empinava-se um pouco e ficava esperando. Era meu amigo, mas me tratava como se fosse meu patrão. De minha parte, eu não passava de uma criança, eu estava certo de que ele era minha propriedade. Além de meu amigo, era uma coisa minha, por sinal uma das poucas coisas de que me sentia proprietário naquele quintal.

Um dia, minha avó chegou de viagem para uma visita de uma semana. Nem por isso deixei de ir à escola no dia de sua chegada. Vontade de ficar em casa até que me deu, mas meu pai jamais admitiria uma coisa daquelas.

Na volta pra casa, fiquei rodeando a mãe da minha mãe, cometendo todos os exibicionismos que então conhecia, recebendo as moedas que ela tinha trazido pra mim, enfim, matando a saudade da minha avó. Só perto da hora do almoço foi que me dei conta de que o Aquiles não viera a meu encontro, como sempre fazia. Fui até o fundo do quintal, espiei o interior do galinheiro, rondei as árvores e a horta, e nada do Aquiles.

Bem, pensei, depois procuro melhor, porque minha mãe já chamava para o almoço. Então meu coração encolheu até ficar do tamanho de uma bolinha de gude. Meu pai trinchava um belo frango assado. Emburrado, fui comer um sanduíche de pernil na escada da frente, sem nem me lembrar de que o porquinho poderia ter sido amigo de algum garoto como eu.

registrado em: