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Cultura

Crônica do Menalton

Apenas um filhote II

por Menalton Braff publicado 11/06/2015 14h03
O que mais me pesa, neste momento, é pensar em todos os filhotes de que desisti antes do tempo, aqueles que ainda não estavam preparados para se defenderem sozinhos
Dario Sanches/ Flickr

Choveu muito esta noite, uma chuva monstruosamente pesada. E meu sono, com barulho de chuva, torna-se doce e suave. Hoje de manhã não havia nuvem no céu quando acordei, e me lembrei do filhote de andorinha que tinha aparecido ontem na varanda, chamando a mãe. Não esperei o desjejum para me ocupar do filhote porque, enfim, todo ser com que cruzamos nos deixa alguma parcela de responsabilidade, pois nos afeta.

Saí para o jardim a fim de ver se descobria alguma pista do passarinho, mas pareceu-me que ele conseguira fugir. Ali, sobre o gramado me esperando ele não estava. Abri moitas de impatienses, examinei o interior de um tufo de barba-de-bode e só encontrei ausências. Pingo de ouro, buchinhas e murtas, tudo foi examinado com mãos diligentes e olhos atentos. Já estava feliz com a vitória daquele serzinho insignificante, quando vi, rente ao muro, uma bolinha preta, imóvel, meio opaca e misturada com a terra. Era o filhote, rígido, inteiramente morto. Sua cabeça tentava penetrar numa barreira de azedinhas, que, por muito densa, não dera entrada e proteção àquele ser frágil, incapaz de resistir à chuva.

Lembrei-me, então, de uma das mais belas crônicas daquela que foi uma das mais belas cronistas do Brasil. Cecília Meireles, com a mão leve que tinha, descreveu seu encontro casual com um cachorro doente, em Um cão, apenas.

Da crônica da Cecília Meireles desci assustado para minha experiência imediata, enquanto removia o diminuto corpo sem vida, que, enrolado em meio metro de papel higiênico, foi jogado no cesto de lixo, que acabou sendo sua sepultura.

Conheço muita gente que afirma batendo no peito nunca ter-se arrependido de nada do que fez na vida. Talvez sejam santos em quem não reconheço a santidade, talvez dementes em cujo oco do crânio não caibam muitos pensamentos. Pois eu, agora confesso, arrependo-me de muita coisa do que fiz, mas também de muita que não fiz. Não que me seja de grande utilidade prática, o arrependimento, serve, entretanto, para minha formação moral, e acho que isso não é pouco, seres em eterna formação, que somos. Mas o que mais me pesa, neste momento, é pensar em todos os filhotes de que desisti antes do tempo. Qual o destino que tiveram? Resistiram à chuvarada? E se eu tivesse insistido uma vez mais, não teria salvo, quem sabe, um ser que ainda não estava preparado para se defender sozinho?

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