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Cultura

Crônica do Menalton

Ambição excessiva

por Menalton Braff publicado 19/03/2015 15h39
Toda vez que alguém cai no conto do vigário (e como tem ainda gente caindo!) me lembro de Pedro Malasartes. A ideia de que é possível um ganho fácil e fabuloso, faz crescerem os olhos da futura vítima
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Nossos valores, geralmente sedimentados na infância, eram transmitidos pela família, pelas histórias que se ouviam ao redor da mesa depois do jantar. Isso num tempo em que ainda não se jantava na frente da televisão, o prato no regaço. Meu velho gostava de nos contar história e mantinha na memória um belo estoque destas narrativas. Entre aquelas de que mais gostava, estavam as histórias de Pedro Malasartes, tradição que nos veio da Idade Média europeia.

Não me lembro agora o tipo de maldade ou travessura praticada pelo Pedro Malasartes contra a filha do rei, mas o fato é que foi suficiente para que o monarca se enfurecesse e o condenasse à morte por afogamento. Enfim, vivia-se um sistema político e social em que o rei era dono de todas as propriedades assim como também dos proprietários. Executivo, legislativo e judiciário tudo concentrado em uma só pessoa. E há quem defenda algo semelhante nos dias atuais.

Preso no interior de uma barrica, lá foi o Pedro, de carroça, na direção do lago real, local muito apropriado para execuções do gênero. Nas vizinhanças do lago havia uma taverna, claro, e os dois funcionários encarregados da execução da sentença real resolveram que a hora era boa para uns copos de vinho.

Espiando pelas frestas da barrica, Pedro Malasartes tudo viu. Neste momento aproximava-se uma carruagem ricamente ornamentada. Em sua boleia, ao lado do condutor, vinha um jovem que, por suas vestes e pela altura do nariz, era de alta estirpe. Algo logo abaixo da condição principesca. Pedro então começou a gritar:

− Não sei ler, não sei escrever, e querem me fazer rei. Não sei ler, não sei escrever, e querem me fazer rei.

O jovem ordenou que a carruagem parasse e foi informar-se do que acontecia. Não precisou de muitas palavras, o rico jovem, para descobrir a injustiça que se ia cometendo. Em pouco tempo, alguns arranjos rápidos para que o jovem de alta estirpe estivesse encolhido no interior da barrica, enquanto Pedro aboletava-se rapidamente na carruagem.

O final da história, isso aprendi com meu pai, não era contado. Nós, seus atentos ouvintes, éramos estimulados a inventá-lo, o final, e o fazíamos de acordo com as inclinações individuais.  Os finais variavam, mas todos eles davam o jovem de alta estirpe como justamente afogado no lago real. O destino do Pedro Malasartes é que mantinha nossas diferenças de índole.

Toda vez que alguém cai no conto do vigário (e como tem ainda gente caindo!) me lembro dessa história. A ideia de que é possível um ganho fácil e fabuloso, faz crescerem os olhos da futura vítima. É a ambição desmedida.