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Almodóvar está nu

por Matheus Pichonelli publicado 09/11/2011 16h14, última modificação 01/09/2012 21h16
Consagrado, diretor espanhol perde a mão ao juntar velho estilo com previsão sombria da relação do homem com a ciência. Muitos, para não chorar, riram
almodovar

O médico-monstro Robert Ledgard, espécie de doutor Mengele vivido por Antonio Banderas

 

Com muito boa vontade, mas muito boa vontade mesmo, dá pra dizer que “A Pele que Habito”, novo filme de Pedro Almodóvar, joga no ar um certo retrato da pretensão humana de interferir nas leis da natureza (real ou humana). Como todo Almodóvar, o filme – baseado no romance Mygale, de Thierry Jonquet – tem lá suas cores de sempre, seus tomates vermelhíssimos em cima da mesa da cozinha de sempre, suas facas afiadíssimas de sempre, sua apreensão de sempre, seus amores contrariados de sempre, suas crueldades de sempre, suas vinganças de sempre e suas passionalidades de sempre.

Tudo muito Almodóvar, que faz com que os fãs saiam sempre felizes e satisfeitos por o terem reencontrado. Há dois anos, quando lançou “Abraços Partidos”, muitos disseram: passou longe dos seus melhores trabalhos, mas Almodóvar é sempre Almodóvar. E o filme, de fato,  valia o ingresso.

Muito diferente do que acontece em “A Pele que Habito”. Apesar de ter lá tudo o que se espera de Almodóvar, a impressão que se tem é o que o velho estilo está de alguma forma deslocado. Como se, de repente, o diretor espanhol resolvesse escrever e rodar um filme de bangue-bangue. Ao reestabelecer a parceria com Antonio Banderas, um ator dos anos 80 caído de paraquedas num filme que se passa em 2012 (sic), e dar a ele o papel de um médico-monstro (espécie de doutor Mengele espanhol) que sonha em dar vida a uma criatura que ama/odeia –  e que pode amá-lo/odiá-lo –, o diretor nada mais fez do que misturar um velho estilo com ficção científica, daquelas muito malfeitas. Parece Michael Jordan, gênio do basquete, jogando beisebol.

Tudo bem que, em determinado momento, a coisa até parece ter algum propósito. Num dos pontos interessantes do filme, quando nota que seu projeto de restituir a pele humana por meio de transmutação com genes de animais – o que é expressamente proibido pelos mais básicos códigos de conduta médica – não será aceito, o doutor Robert Ledgard, personagem de Banderas, alerta para a inutilidade da proibição. Lembra que tudo o que está em volta do corpo humano, inclusive o que se come, já é fruto de mutações genéticas.

Da mesma forma que despreza as normas da ciência, tentando um avanço forçado que, ao fim, revela a busca enlouquecedora de se eliminar a morte (a busca original da humanidade desde que o mundo é mundo), o personagem não tem escrúpulos também ao se propor a fazer justiça à revelia do estado, das leis e do direito a defesa. E entra aqui uma outra provável abordagem sobre o filme – de novo, alcançada com muito, muito boa vontade: a pretensão humana de desafiar as leis naturais, humanas e científicas, é o caminho para tornar o homem sublime, mas também o leva à destruição.

A leitura sobre essa obstinação levou o enfermeiro Benigno Martin, personagem de Javier Cámara em “Fale com Ela”, a cruzar a fronteira do aceitável para dar vida a uma personagem em coma; levou também Raimunda (Penélope Cruz) e Irene (Carmen Maura) a usarem a morte para seguirem vivas; entre tantos outros personagens inesquecíveis, sobretudo femininos, que fizeram de Almodóvar uma espécie de leitura obrigatória para se entender a complexidade da alma humana.

Mas em “A Pele que Habito” Almodóvar perde em sua maior qualidade: a construção do personagem. Nebuloso, o doutor Ledgard parece deslocado e mal construído – assim como todos os outros personagens que o ronda, entre eles uma bizarra participação de Marisa Paredes, uma mãe não assumida (sic) que passa o filme tremendo com uma arma na mão (desde o começo, fica mais que do que na cara que uma hora ela ou mata ou morre).

Apesar de baseado num romance, a impressão que se tem é que, se não fosse um diretor consagrado, Almodóvar teria até vergonha de tentar convencer os produtores e parceiros a bancarem um projeto tão mal construído.

“Ó, tô com uma ideia aí, de uma história aí, que tem umas coisas meio de estupro, e uns lances aí de troca de sexo, sexo anal e vai ser um baita clássico”.

Qualquer um voltaria com o projeto enrolado debaixo do braço e uma bela marca de bota nas costas, mas Almodóvar é levado a sério, até demais, e é aí que mora o perigo. Prova disso foi a aclamação geral da crítica sobre o novo filme (“original”, “sombrio”, “a volta às origens”). Não viram que, dentro da sala de cinema, o público inteiro riu (e muito) num momento em que certamente Almodóvar imaginou que arrancaria lágrimas indiscriminadas – para os que viram, falo da hora do “mãe, sou eu”). Assim como as pessoas riram quando falei em voz alta a grande sacada do filme...

Foi quando me dei conta de que um dos diretores que tinha como grande trunfo manter o espectador na mão até o final da trama acabava de perder a linha, talvez pela primeira vez. Uma pena, porque acabava de entrar na sessão com a maior das boas vontades – a mesma boa vontade que me levou a escrever estas maltratadas linhas só para dizer que, sim, é Almodóvar, mas, desta vez, não vale o preço do ingresso. Melhor passar na locadora e pegar uma ficção científica de verdade. Ou reencontrar o Almodóvar original, de filmes como “Carne Trêmula”, que o transformaram num dos mestres de sua arte e sua época.

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