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Cultura

Crônica do Menalton

Agora biônico

por Menalton Braff publicado 21/02/2014 10h12
Uma coronária, a da direita, me botou de férias por mais de um mês, com muitas desconfianças sobre o retorno à vida normal. Ontem voltei à ativa. Por Menalton Braff
Galeria de Lynette/Flickr
Hospital

"Quarto de hospital, assim como a comida que nos servem, não tem sal. Lençol branco, paredes brancas, enfermeiros e enfermeiras vestidos de branco. Que é a cor do sal, mas que não tem seu gosto. Sabor nenhum"

Uma coronária, a da direita, me botou de férias por mais de um mês, com muitas desconfianças sobre a oportunidade do retorno à vida normal. E angina, descobri, não vem de anjo nem de Angelina. Deriva do verbo latino angĕre, estrangular. De fato, senti que alguma coisa me estrangulava, mas não pelo pescoço. A dor ficava ali, por baixo do esterno, uma dor que vinha de longe e cada dia mais feroz.

Bem, aprendi nessas férias involuntárias uma porção de coisa. Agora já sei o que é cateterismo e stent. Aliás, por culpa desse último é que posso me considerar biônico. Segundo descobri, o stent moderno tem a forma de um minúsculo bobe, desses que as nossas vizinhas quando usam não vão além do quintal. Pois o stent que me deram ficou lá num ponto da coronária para que ela deixe de me incomodar. E funcionou. Quando o médico (não tive condições de anotar seu nome) disse, pronto, terminou, retirando em seguida aquele arame que alguns chamam de catéter e outros de cateter, e todos estão certos, quando ele terminou, consultei meu esterno (com esse mesmo, revisor de todos os nossos pecados) e ele não me disse nada. Não havia mais a dor da angina, e eu estava pronto para passar dois dias dessas férias dentro de uma UTI, local de que já ouvira muito falar, mas que desconhecia.

Uma aventura, isso de UTI. O paciente, seja impaciente ou não, pode divertir-se o dia todo olhando aqueles fios que o ligam a uma pequena máquina com luzinhas de várias cores. E como não pode se mover muito, pois os fios, dezenas deles, não permitem, é uma diversão bastante razoável. Olhando para o aparelhinho, descobre-se minuto a minuto como vai a pressão, tanto a máxima quanto a mínima, como está o batimento cardíaco, o índice de oxigenação dos pulmões e alguns outros números que não descobri para que serviam.

Dizem que se alguma coisa estiver dando errado, o aparelhinho individual se põe a gritar convocando médicos e enfermeiros para procedimentos de urgência. Felizmente meu aparelhinho comportou-se muito bem, mantendo-se quietinho por quarenta e oito horas. Sobre comadres e papagaios não se fala por não ser o local adequado.

Bem, então um quarto de hospital. Quarto de hospital, assim como a comida que nos servem, não tem sal. Lençol branco, paredes brancas, enfermeiros e enfermeiras vestidos de branco. Que é a cor do sal, mas que não tem seu gosto. Sabor nenhum.

Então começa o desfile do pessoal vestido de branco. Algum tempo depois do jantar, o sono chegando, a porta é aberta abruptamente e entra alguém com uma bandejinha na mão. O que trazem, às vezes é pra boca, muitas outras para um músculo ou uma veia. Aqueles furinhos.

Mais tarde, antes da meia-noite, talvez, já passaram outros portando a bandejinha (também branca). Depois da meio da noite, o desfile continua.

Enfim, o médico disse que eu já podia completar minhas férias em casa. Só gostei, porque apesar da continuação dos cuidados, em casa tenho meus livros, minha geladeira e o computador, mas principalmente e acima de tudo, minha mulher, com quem já combinei: sem qualquer peça branca no vestuário pelos próximos doze meses.

Ontem foi meu último dia de férias.

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