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Cultura

Cinema e sociedade

Acossada

por Deni Rubbo — publicado 17/11/2013 10h37, última modificação 17/11/2013 15h49
O percurso assombroso da "juventude adulta" no filme "Frances Ha". Por Deni Rubbo
Frances Ha

Cena do filme Frances Ha

Frances Ha é o melhor filme da carreira de Noah Baumbach, mas isso não significaque seja uma obra prima. Uma obra relevante, pois impulsiona a imprudência de pensar. Na verdade, o diretor assina filmes medianos, para sermos bastante generosos, como o simpático Lula e a baleia e o medíocre Margot e o casamento. Com este último filme, fica clara uma ruptura com os anteriores e, ao que tudo indica, uma possível mudança na trajetória. A plateia é outra e o circuito de exibição, também.

Antes víamos o movimento contrário: primeiro um cinema alternativo, mais ousado esteticamente e até, quem sabe, politicamente engajado (o cinema independente). Depois, com a dinheirama entrando por todos os lados dos sets, uma natural acomodação da estética cinematográfica em nome de um público maior, a banalização dos conteúdos etc. (o cinema dependente).

Frances Ha foi um filme independente bem sucedido no campo alternativo em vários países, e naturalmente um fracasso no campo do entretenimento. Estamos diante de um filme cuja protagonista, Frances (Greta Gerwig), caminha por uma Nova York em preto e branco. Filmes pretos e brancos remetem a algo de nostalgia. Frances é uma “menina” de 27 anos, divertida, atrapalhada, sonhadora e, ao mesmo tempo, preocupada, triste, melancólica. Não é um estereótipo, mas uma personagem demasiadamente real.

Um momento de transição da vida em que ainda se é metade adolescente e metade adulta – 27 anos – é uma das etapas mais delicadas para se tomar um rumo definitivo, que pode se tornar um grande pesadelo. Afinal, quantas pessoas com tal idade – para mais, para menos – têm a convicção do que querem de fato? Estamos na vida, não mais em seu prelúdio, os pequenos erros viram facilmente grandes fracassos, estamos submetidos a todo tipo de pressão e julgamento social e familiar – especialmente no terreno afetivo e profissional.

O problema é que Frances sequer está em uma encruzilhada. Na realidade, não está em jogo uma questão de escolha, mas a ausência de uma tomada de posição, um vazio permanente da vida, de que paradoxalmente a personagem se retroalimenta para continuar vivendo suas fantasias.

A famigerada Nova York apresenta-se a Frances como um laboratório de infinitas possibilidades de novas experiências e, ao mesmo tempo, gera uma embriaguez na protagonista pela vida agitada e tumultuosa da metrópole. Ela se esquece de quem é e qual seu lugar. Frances está imersa num “grande deserto de homens”, como anunciava o poeta rebelde Baudelaire.

Não seria justamente essa atmosfera que dá origem à sensibilidade moderna? O saudoso marxista Marshall Berman, em seu seminal Tudo que é sólido desmancha no ar, afirmou que “ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos”.

Essa desconstrução não é nova. Só para recordamos, dois filmes que derrubam a carapuça da cidade americana mais poderosa do planeta através de dois anti-heróis: Taxi Driver (1976) e Nova York – uma cidade em delírio (1988), com personagens arrepiantes, solitários, frustrados, sufocados e soterrados pela vida moderna. De um lado, Travis Bickle (Robert Niro), com incapacidade de comunicar-se com o mundo, caído em uma desgraça psíquica e, do outro lado, Jamie Conway (Michael J. Fox), aspirante a escritor, que peregrinava como flâneur em uma conturbada Nova York, perdido em noites tristes pelo consumo de cocaína, pelo fracasso do casamento e pela morte da mãe.

Contudo, diferentemente do filme de Martin Scorsese e do de James Bridge, Frances Ha não vai até as últimas consequências do lado obscuro da condição subjetiva: a solidão e a desilusão. É pelas frestas que vemos a melancolia de nossa personagem. O filme acomoda-se em um otimismo um tanto excessivo, em que o entrelaçamento entre fugacidade e espontaneidade individual adquirem a tonalidade principal.

A espontaneidade de seu caráter – empolgante, é claro –, pode, contudo, obliterar nuances psicológicas da personagem. É como se Frances criasse uma roupagem da menina moderninha e atrapalhada, sempre com muito charme e inventidade, para suportar as frustrações de toda linha que é inerente ao tourbillon social da modernidade.

Ela não está errada em dizer para sua amiga que “vamos dominar o mundo”, afinal, somos senhores de nossa história, mas é preciso saber também que muitas vezes não a fazemos como queremos. Frances está acossada.

Frances Ha pode ser visto também como um filme com a tônica de uma geração. É difícil desenvolver essa proposição, já que a obra centra-se praticamente em uma personagem, mas é no mínimo, um pecado ignorar totalmente essa hipótese tentadora. É uma geração específica, é claro, que se criou em meio do triunfo absoluto da mercadoria na esfera cultural e artística, reforçado pelo ideário de que, com seus vinte e poucos anos, teriam uma vida bem sucedida. Talvez o formato em preto e branco ressalte um traço comum nessa geração desencantada e resignada que considera impossível qualquer tipo de restabelecimento com o passado (imaginário ou real), assim como julga (e lamenta) simplesmente irreversível o advento da modernidade capitalista.

Ao fim, parece que Frances, ao sair correndo e dançando pelas ruas de Nova York ao som de "Modern love", de David Bowie, encantadora, desengonçada e presa a algumas “pedras no meu do caminho”, precisa aprender mais o ofício de indignar-se. Quem sabe, a antológica sequência de Renton do lendário Trainspotting (1996), que foge de um agiota e narra em off sua visão da vida moderna recusando-se aos mandamentos pré-programados da vida burguesa, ao som de “Lust for life” de Iggy Pop, ajude Frances Ha com uma “dose” ou com uma “injeção” de experiência do choque para alargar esses horizontes contestatórios.

Em tempos de “anemia histórica” e “depressão do futuro” (Daniel Bensaïd), resta saber o que cabe por em movimento nesse percurso assombroso de acumulação de experiências modernas na “juventude adulta” que se formou na era da mundialização do capital. Se não, aprofundaremos ainda mais o enorme abismo entre a banalização espetacular da reprodução técnica da arte e a desbarbarização da arte independente como utopia concreta e possível.

 

Deni Ireneu Alfaro Rubbo é sociólogo.

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