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Abaixo da crítica

por Menalton Braff publicado 23/01/2015 14h45, última modificação 11/06/2015 18h43
O ensino vai mal no Brasil. Os baixos salários não convidam grandes cérebros a lecionar e para os alunos o que vale mesmo é consumir
Marcelo Horn/ GERJ
Sala de aula

Ao invés da aquisição de conhecimento, estimulamos a aquisição de bens

Agora está todo mundo querendo discutir o assunto. Algum tempo atrás, saiu o resultado de pesquisa do Saeb e a sociedade descobriu pasma que seus filhos estão cada vez menos inteligentes. A notícia deixou muita gente em polvorosa. Média de pouco mais do que 36% significa que estamos muito perto do fundo do poço. Mas parece que enquanto houver poder de compra o abalo não é lá grande coisa. Sim, porque vivemos numa época em que a mercadoria adquiriu estatuto demiúrgico.

Os burocratas da educação divergem entre si. Alguns acusam a baixa qualidade dos professores pelo resultado. Outros acham que é uma questão de currículo defasado. E lá ficam eles brigando como vêm fazendo há mais de cem anos sem chegar a um acordo. Os pais querem saber, a mídia noticia, todo mundo grita e ninguém se entende.

O ensino vai mal. No Brasil o estudo anda capengando. Eis a gritaria geral.

Que existem professores mal formados é uma coisa muito lógica, mas isso não é exclusividade da classe. Em toda profissão existem pessoas mais e menos competentes. Além disso, a remuneração dos professores não convida muita gente ao ofício, quer dizer, os melhores cérebros são postos a serviço do comércio, da indústria, e de outras atividades econômicas.

Querer atribuir o baixo rendimento escolar a uma única causa é reduzir um problema complexo a uma tal simplicidade que impossibilita qualquer solução. Mas acho que se pode falar da causa principal, aquela de que ninguém fala por ser antipático falar.

O aluno não nasce nem vive dentro da escola. Antes de lá chegar ele já é o fruto da sociedade que o gerou. E a sociedade, com o reforço da mídia, está a todo momento dizendo que o sucesso na vida está ligado a poder de compra. Uma sociedade em que um jogador de futebol analfabeto ganha quatrocentos mil reais por mês (quatrocentos?, isso já não é coisa do passado?) vamos e venhamos, não estimula nem um pouquinho a aquisição do conhecimento. A deusa mercadoria, esta sim, proporciona a suprema felicidade. Uma boa casa, um carrão, vários aparelhos elétricos e eletrônicos, o que mais você quer para ser feliz? Se você não sabe o significado de tudo isso, se não sabe nem o seu lugar neste universo? Que digo, universo? Se você nem sabe que pertence a uma família, ah, isso pouco importa. A deusa mercadoria resolve tudo isso sem mexer com sua cabeça.

E os alunos sabem muito bem que quem estuda passa, quem não estuda passa também. Ora, ora, fazer força pra quê?

O Romário não perdeu tempo com escola, certo? E hoje, graças ao futebol está senador da república. E ele sabe o que é res publica? Ah, isso não tem a menor importância.