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Crônica do Villas

Abaixo a ditadura!

por Alberto Villas publicado 06/06/2013 11h00, última modificação 06/06/2013 11h32
Museu em Santiago guarda objetos de presos políticos, cartas de crianças aflitas e um pouco de liberdade. Por Alberto Villas
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Menino indo para a escola

Naquele 11 de setembro de 1973 quando os aviões da Força Aérea chilena começaram a bombardear o Palácio de La Moneda fiz uma promessa. Sim, sou de fazer promessas. Quando vi a última fotografia de Salvador Allende, revólver em punho olhando para o céu que não o protegia jurei que só iria ao Chile quando o ditador Augusto Pinochet, o dono do golpe militar, estivesse morto, bem morto.

Naquele 11 de setembro eu já estava com as malas prontas e poucos dias depois pegava um avião da Varig com destino a felicidade. Primeira parada: Lisboa. Levava na bagagem, além de paçoquinhas Amor e muitos sonhos, um exemplar da revista Veja dos tempos áureos com uma reportagem de 13 páginas contando aquela história que ficara atravessada na minha garganta.

Durante os anos de Paris aquela capa de Veja feita por Hélio de Almeida que trazia a palavra Chile em letras garrafais cujo i era o cano de uma metralhadora, ficou ali dependurada num painel de cortiça que tínhamos na sala do nosso quitinete talvez esperando Pinochet morrer.

Foram nesses anos que toda segunda-feira eu descia aos porões da livraria Joie de Lire em pleno coração do Quartier Latin para comprar o Opinião e ler todos aqueles jornais clandestinos da América do Sul tomada por ditaduras militares. A luta continuava e parecia não ter fim naqueles apertados e sufocantes poucos metros quadrados do subsolo da Joie de Lire. Exilados de todas as partes iam chegando e folheavam avidamente aqueles jornais, alguns chegavam a sentar-se no chão para ler com mais atenção tudo que se passava nas nossas terras além futebol, do samba, do choro e do rock and roll.

Os anos foram passando, muitos, duros e cruéis. De tempos em tempos reuníamos com chilenos, argentinos, uruguaios, bolivianos, paraguaios e peruanos na Rue de La Roquette e foi assim que aprendemos todas aquelas canções de Victor Jara, morto num estádio de futebol depois de perder os dedos naquele setembro negro chileno. La Cafeteria, La Palmatoria, La Edad de la Mujer, as canções iram desfilando uma a uma enquanto nós pobres latino-americanos tomávamos vinho francês de segunda categoria comendo pão com camembert Président comprado com dinheiro de vaquinha.

Somente nas primeiras horas da madrugada da última sexta-feira, tantos anos depois, pisei no Chile. Confesso que quando sai do avião da TAM e coloquei os pés no aeroporto Comodoro Arturo Merino Benítez tive vontade de dar uma de João Paulo II e beijar o chão.

Na mesma sexta, logo cedo, lá estávamos nós na porta do La Moneda, intacto e belo, eu como se pagando uma promessa. Os carabineiros de verde andavam pra lá e pra cá no meio do povo na mais perfeita harmonia. A imponente estátua de Salvador Allende ali ao lado do palácio, recebia os primeiros raios de sol do frio outono chileno.

Fomos caminhando e não muito longe dali encontramos o Museu da Memória e dos Direitos Humanos inaugurado em 2010 pela presidenta Michelle Bachelet. Em um terreno de 15 mil metros quadrados, os chilenos guardam todas as lembranças de uma ditadura que durou até 1990 e para nunca mais.

Logo na entrada, filmes em preto e branco exibem imagens que voltaram à minha memória quando, de malas prontas, me preparava para dizer bye bye Brasil. Os bombardeios ao Palácio de La Moneda, muita fumaça, os tanques nas ruas, os estudantes correndo, o medo estampado no rosto de cada um, o Estádio Nacional.

Ali não tem erramos e podemos ouvir claramente narradores em gravações originais dizendo: “As forças democráticas acabam de chegar ao palácio...”

Foi ali naquele espaço que revi bem guardados em cofres de vidro todos os jornais clandestinos que folheava nos porões da Joie de Lire. Foi ali, andando de sala em sala que ouvi novamente canções de Victor Jara, algumas que não conhecia de cor. O museu guarda tudo. Objetos pessoais dos presos políticos que sumiram pra nunca mais, cartas emocionantes e apaixonadas de crianças aflitas em busca dos pais e de um pouquinho de liberdade, desenhos, bilhetes, o portão de ferro do palco do terror e um enorme painel mostrando as fotografias de muitos dos 30 mil mortos pelo regime. Sinceramente, nunca imaginei que viveria para ver o que estava vendo.

Confesso que sai dali com a alma lavada, como se tivesse tirado um peso das costas, cumprido uma promessa feita há muitos anos. Andando pelas ruas de Santiago, trombando em enormes outdoors que anunciam os candidatos à presidência da república nas eleições que se aproximam, pensei com os meus botões: Como é bom viver em um país livre!