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Cultura

Crônica do Menalton

A vida moderna

por Menalton Braff publicado 11/12/2014 12h18
Fiquei sem telefone e isso me exasperou
Dmitry Serebryakov / AFP
Internet

Vivemos em rede, até perder a conexão

Depois de uma semana de vida primitiva, quando nos mudamos para a casa de onde hoje partem minhas garrafas, cheguei a pensar em abandonar tudo e seguir para o coração do Brasil, que pulsa e é cálido, e onde poderia curtir uma vida natural no seio da mãe natureza. Depois me lembrei do remédio diário para controle da pressão, na coceira do rosto quando a barba cresce e desisti de meu destino como “bom selvagem”. Rousseau que me perdoe, mas continuo preferindo a sociedade que me corrompe. Minha regressão (regressão?) me acarretaria sacrifícios insuportáveis.

Fiquei sem telefone e isso me exasperou. Vocês devem imaginar o que é ficar sem telefone, pois não? (Coisas da língua viva: “pois não” afirma). Fiquei isolado de grande parte da humanidade. Bem, nem tão grande assim, mas principalmente daquela com que me comunicava por e-mail. Meu desespero foi imenso, pois dependo da internet para me manter vivo. Pelo menos para que assim me considerassem alguns conhecidos que prezo bastante.

Imobilizado, sentei numa pilha de caixas de papelão esmagando meus livros, e passei a refletir sobre nossa dependência de uma verdadeira parafernália de artefatos tecnológicos com que a civilização inventou de facilitar nossa vida. Eu estava cansado fisicamente e emocionalmente arrasado.

No dia seguinte, quando acordei, botei o café no microondas e descobri que a força ainda não fora ligada. Tomei o café assim mesmo, frio do jeito que estava. Precisava escrever uma crônica, mas o computador me olhava com seus olhos vidrados sem nada responder, talvez morto, não sei, e minha velha máquina de escrever, coitada, estava encarangada pela falta de uso. Sua existência era um caso de afeto por alguém que por muitos anos me serviu sem nunca reclamar. Essas coisas que a gente guarda pensando que esse lugar onde se mora um dia pode virar museu.

Inconformado com a impotência, fui até um vizinho e telefonei para a companhia que cuida dos telefones, onde descobri aterrado que ficaria ainda uns dias fora do mundo.

A vida moderna é sustentada por fios, pinos, conectores e disjuntores e é deles que depende nosso equilíbrio emocional, nossa vontade de viver, nossa compreensão do universo.

Entrei em casa assobiando um trecho da nona do Beethoven, que pelo menos fala de alegria. Freude, schöner Götterfunken,/Tochter aus Elysium,/wir betreten feuertrunken,/ Himmlische, dein Heiligtum!

(E para quem não sabe alemão, como eu, eis a tradução: Alegria, formosa centelha divina, / Filha do Elíseo,/ Ébrios de fogo entramos/Em teu santuário celeste!).

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