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A vida como estrutura

por Willian Vieira — publicado 26/10/2011 10h11, última modificação 28/10/2011 10h16
Livro revisa a gênese e o espólio do pensamento de Lévi-Strauss, niilista que viveu a metáfora de sua teoria
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Livro revisa a gênese e o espólio do pensamento de Lévi-Strauss, niilista que viveu a metáfora de sua teoria. Foto: Reprodução

"O Brasil foi a experiência mais importante da minha vida.” Proferida por um Claude Lévi-Strauss quase centenário, a frase causou espanto. Verdade que ele vivera três anos no Brasil, onde ajudara a fundar o estudo das humanidades e fizera as expedições que alimentaram o cerne de sua obra. Mas, exceto uma expressa visita diplomática nos anos 1980, ele jamais repisaria o solo que o projetara. “E não foi por falta de convite”, diz Patrick Wilcken, autor de Claude Lévi-Strauss: O poeta no laboratório (Alfaguara, 398 págs., R$ 44,90). O ímpeto do etnógrafo desbravador de matas virgens em busca de tribos intocadas é que se arrefeceu. “Ele se tornou um acadêmico de gabinete”, um niilista vitimado pela apropriação da teoria como metáfora da vida. Mas a experiência brasileira fora mais que gratificante, para ele e para o mundo. Foi o que colocou a antropologia no mapa das ciências humanas e fez dele o antropólogo mais célebre da história.

Tudo por acaso. Decidido a viajar o mundo, o jovem professor de ensino médio, recém-casado e sem perspectiva, não titubeou ao receber o convite do diretor da Escola Normal Superior de Paris para lecionar na recém-criada Universidade de São Paulo, em uma cidade, afiançaram-lhe, repleta de índios nas ruas. Lévi-Strauss não os encontrou na “Chicago tropical”. Mas de lá partiu em uma expedição pelos rincões do País que o poria em contato “transversalmente” com vários grupos indígenas, chance única para comparar fragmentos e intuir tal lógica inerente à cultura humana. As notas da viagem, hoje na Biblioteca Nacional de Paris, não ofereceram grande alento científico à época, mas serviriam de base para a abordagem nascida, décadas depois, do cruzamento entre seu gênio investigativo e a linguística estrutural.

E teoria é o que importa aqui. Essa não é uma biografia de cunho pessoal, que pouco desvela dos três casamentos e dois filhos do acadêmico, tampouco mergulha nas fofocas e minúcias que povoam o biografismo atual. Para entender o homem por trás da ideia, Wilcken veio ao Brasil refazer os passos de Lévi-Strauss. Viveu em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Cuiabá. Desconstruiu mitos alimentados em Tristes Trópicos, ao comprovar que a expedição “oitocentista” à Serra do Norte em 1938 teve menos de Malinovski do que faz crer o livro. Mal se falava português, o tempo em cada lugar era curto, a trupe muitas vezes era maior que o número de nativos. Foi para entender como a ideia atrás do homem conduziu sua vida que ele escreveu a biografia.

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