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Resenha

A vez do Dieselpunk

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 12/09/2011 15h08, última modificação 12/09/2011 15h25
O tipo de ficção que o novo livro apresentava foi, algo brincalhonamente, batizado de 'Steampunk' e inaugurou uma onda de obras que fantasiam e especulam em torno de invenções extraordinárias ao estilo de Júlio Verne

Nos anos 1980, William Gibson e Bruce Sterling tornaram-se conhecidos como os pais da literatura Cyberpunk, que procurava radicalizar a ira da rebeldia punk contra o “sistema” num futuro próximo, um século 21 que se imaginava dominado pela informática e por grandes empresas privadas. Então, em 1990, publicaram The Difference Engine, um romance no qual algo do clima desse subgênero da ficção científica era transplantado para o cenário da Inglaterra vitoriana, supondo que tivesse sido de fato construída a “máquina diferencial”, computador mecânico que foi proposto e projetado pelo matemático inglês Charles Babbage nos anos 1830, no auge da Idade do Vapor.

O tipo de ficção que o novo livro apresentava foi, algo brincalhonamente, batizado de “Steampunk” e inaugurou uma onda de obras que fantasiam e especulam em torno de invenções extraordinárias ao estilo de Júlio Verne ou de outros anacronismos projetados num cenário mais ou menos baseado no século XIX, muitas vezes sem nada do inconformismo implícito no componente “punk”. Pelo contrário, algumas obras sugerem saudades da estética ou dos valores de nossos tataravós. No Brasil, como em outras partes do mundo, há jovens que se divertem reunindo-se para se vestir ao estilo “vitoriano”. Uma antologia de contos, Steampunk da Tarja Editorial e outra de noveletas, Vaporpunk da Editora Draco, apresentaram as primeiras experiências literárias brasileiras nesse subgênero.

A razoável popularidade da proposta levou outros a considerar outras semelhantes: por que não jogar da mesma forma com a cultura e sociedade da Renascença e com as fantasias tecnológicas da época – como, digamos, os desenhos de Leonardo da Vinci –, e criar um “Clockpunk”?

Se a moda continuar a pegar, talvez um dia muita gente se esqueça do que foram (ou ainda são) os verdadeiros punks e suponha que “punk” é apenas um sufixo para formar nomes de subgêneros literários exóticos. Talvez fosse melhor falar apenas em “retrofuturismo”, uma exploração especulativa do futuro do pretérito. Mas ainda que esses nomes sejam um tanto canhestros, os resultados podem ser interessantes como forma de revisitar os sonhos do passado com os olhos do século XXI. A coletânea Dieselpunk (Editora Draco, 384 págs., R$ 57,90) é um exemplo, com a proposta é voltar a explorar o pensamento e a ficção científica da primeira metade do século XX.

Nessa época, a força do vapor cedeu a primazia ao petróleo e à eletricidade, a moral vitoriana é deixada para trás pelas melindrosas, o conservadorismo da Era dos Impérios de Eric Hobsbawm é sucedido pelas ideologias radicais da Era dos Extremos, e as histórias europeias de aventuras coloniais, mistério e viagens extraordinárias de Júlio Verne, Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, H. R. Haggard e outros inspiradores da temática Steampunk cedem lugar à ficção científica estadunidense à maneira de Edgar Rice Burroughs, Hugo Gernsback (editor das primeiras revistas pulp especializadas em ficção científica) e Philip Nowlan (o criador de Buck Rogers).

“Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, segue a tradição pulp dos anos 30, de histórias dinâmicas e violentas de crime e suspense num clima de corrupção e decadência, nas quais heróis detetivescos, sombrios e másculos, decifram mistérios terríveis e enfrentam inimigos malignos com recursos da ficção científica, mas combina tudo isso com o anticomunismo cego da Guerra Fria. A narrativa é viva e a trama engenhosa nos aspectos tecnológicos e científicos, mas o cenário é um Brasil no qual ocorreu uma revolução stalinista e o regime é descrito com uma fúria maniqueísta curiosamente análoga à que o mesmo autor demonstra contra as religiões no romance de ficção científica “Guerra Justa”, também publicado pela Editora Draco.

Em ambos os casos, não se faz a menor tentativa de levar em conta a ideologia e o ponto de vista dos antagonistas, sempre vistos como nada mais que cínicos e mentirosos que querem o poder pelo poder. Nem de realmente conhecê-los: nada se percebe aí do marxismo e sua história, fora de estereótipos grosseiros da indústria cultural estadunidense. Esses comunistas só não comem criancinhas no café da manhã por que o autor os imagina fazendo coisas muito piores com elas (literalmente). Para combatê-los, põe em cena o “Escorpião Azul” um super-herói mascarado e tecnológico à maneira do Batman dos quadrinhos ou, mais precisamente, do vigilantismo amargo e criptofascista do Batman de Frank Miller em “Cavaleiro das Trevas”.

Uma amostra: “O grito de desespero da jovem mãe trespassa a noite como uma baioneta cruel, mas ninguém responde. Ninguém reage. Ninguém ouve. Desde a revolução que o povo de São Paulo sabe que não é saudável ouvir o que acontece com os vizinhos à noite”.

Essa primeira noveleta não é representativa, porém, do tom geral da coletânea, que abrange um leque bem diversificado de pontos de vista, quase todos mais equilibrados e matizados. Pode-se encontrar até um Luís Carlos Prestes que salva o dia e uma União Soviética que se mostra a melhor aliada do Brasil.

“Grande G”, de Tibor Moricz, sai do campo da ficção especulativa para entrar no da alegoria. O personagem-título é um megaempresário, senhor absoluto de uma imensamente poluída Smoke City fundada no petróleo recusa sua tecnologia à relativamente atrasada Steam City, ainda baseada no carvão e no vapor, ao mesmo tempo que bloqueia, por amor à fumaça, novas tecnologias que permitiriam reduzir enormemente o consumo de combustível. Os herdeiros do “Grande G”, igualmente corruptos, mas mais progressistas, conspiram para tomar o poder e mudar os rumos da cidade, fazendo uso de espionagem e sedução. A trama é envolvente, a linguagem forte e dura. perfeita para o tema e as cenas de sadismo, incesto e parricídio são de fazer corar os Bórgias. Qualquer semelhança com as relações das elites dos países ricos com países periféricos na vida real não é coincidência.

Amostra: “Gigi desconfiava seriamente que o trono da G Max jamais seria passado ao pai. Ele era muito tonto, muito parvo. Então lhe mordiscou a orelha esquerda, passando de leve a língua pelo lóbulo. Ele gemeu, arrepiando-se e ela riu, divertida”.

“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado”, de Octavio Aragão, volta a combinar história alternativa com ficção científica. Desta vez, o cenário é o sertão nordestino nos anos 1920 e os personagens principais são Luís Carlos Prestes, o tenente Siqueira Campos e Lampião, com direito a participação especial de Maria Bonita, Padre Cícero e outros personagens ligados às epopeias da Coluna Prestes e do cangaço. A princípio, tudo se passa de maneira muito parecida com a realidade de 1925, na qual o político cearense Floro Bartolomeu convidou o chefe cangaceiro a se juntar a seus jagunços e combater Prestes em troca de uma patente de capitão. Então, um misterioso carioca que diz ter vindo do futuro oferece armas futuristas dignas de Flash Gordon, tanto aos revolucionários de Prestes quanto ao capitão Virgulino. Isso muda completamente o rumo da história, mas não da maneira esperada pelo suposto mercador da morte. A noveleta se destaca pela ambientação bem acabada e pela clareza e profundidade da caracterização (ainda que especulativa) dos conflitos políticos em jogo.

Amostra: “Prestes estava farto de tudo aquilo, mas era uma estrada sem volta. O Carioca era um fato inescapável, uma incongruência impossível de ignorar e que colocava em xeque a natureza da revolução, quiçá de suas vidas. De que adiantaria subverter o Estado se isso seria apenas uma manobra num teatro de marionetes, disputas ininteligíveis orquestradas por gente ainda não nascida”.

“Impávido Colosso”, de Hugo Vera, destoa da coletânea pela ingenuidade e pela distância dos grandes temas da Era dos Extremos. É uma aventura Steampunk salpicada com um pouco de óleo, sem que isso se reflita na concepção da época e dos personagens. Embora se passe nos anos 1940, temos aqui um império brasileiro encabeçado por um D. Pedro III, um Barão de Mauá (supostamente descendente do original) e uma trama baseada em um típico conflito imperialista do século XIX, no qual não há outras questões em jogo além do patriotismo do “meu país, certo ou errado”, um monarquismo cândido e nostálgico (que o autor, talvez inadvertidamente, descreve como absolutista, pois o Imperador nomeia ministros à vontade) e a picuinha com nossos vizinhos portenhos. O Brasil e o Paraguai são atacados por robôs a diesel de uma Argentina que, armada pelos britânicos, pretende recuperar territórios perdidos para os vizinhos numa guerra anterior. O Império contra-ataca com o “impávido colosso” do título, um robô tripulado gigante construído pelo próprio Rudolf Diesel nas indústrias Mauá. É uma trama de filmes de ação à maneira de Transformers: dedica-se muito a máquinas e batalhas e reduz o humano e político a clichês. Destes, o mais bem achado é o da superespiã, no caso uma voluptuosa paraguaia que presta uma ajuda inestimável aos pouco imaginativos brasileiros e se chama... hum... Clarissa Riquelme.

Amostra: “Do alto da cabine de comando, Clarissa arqueou as sobrancelhas ao observar outro pequeno grupo de mecanoides que caminhava em torno do Colosso. Muitos outros grupos faziam o mesmo, numa ciranda frenética, disparando contra o gigante, enquanto o Capitão Ribeiro revidava com canhões e lança-foguetes”.

“País da Aviação”, do organizador Gerson Lodi-Ribeiro, não é propriamente Steampunk nem Dieselpunk, mas uma história alternativa que abarca os dois períodos e se estende por mais de 150 anos, do início do século XIX a meados do XX. Uma série de episódios descreve uma história possível a partir de um ponto de divergência em 1801, quando o primeiro-cônsul Napoleão Bonaparte contrata o inventor estadunidense Robert Fulton para construir navios de guerra a vapor para a marinha francesa. Graças a esses navios, os franceses vencem a Batalha de Trafalgar, conquistam a Grã-Bretanha e consolidam sua hegemonia na Europa. O núcleo dieselpunk da noveleta está no final do século XIX: os irmãos Wright vão ao bisneto de Napoleão oferecer sua invenção, mas são surpreendidos ao descobrir que os franceses haviam desenvolvido aviões mais avançados em segredo, graças à engenhosidade de um inventor brasileiro. Não lhes é oferecido mais do que um lugar na equipe de le Petit Santos. Segue o crescimento da rivalidade entre a hegemonia europeia liderada pela França e os EUA, a caminho de uma guerra brutal, com uso de bombardeios aéreos e gás venenoso. O cenário alternativo é convincente e interessante e apesar da brevidade dos episódios, os numerosos personagens são bem caracterizados. Faltou, talvez, explicar melhor algumas divergências, tais como a estrutura política da Hegemonia Europeia pós-imperial e a permanência do calendário revolucionário francês que, na história real, foi abolido por Napoleão em 1806. Este detalhe, aliás, atrapalhou a edição, que se enganou numa das correspondências datas referidas na noveleta com as gregorianas. As corretas são as seguintes:

21 Thermidor IX   – 9  de agosto de 1801 (e não 8 de julho de 1895, como está na nota de rodapé)

29 Vendémiaire XIV  –  21 de outubro de 1805 (sem nota)

19 Messidor CIII  –  8 de julho de 1895 (sem nota)

28 Frimaire CXXXVI  –  20 de dezembro de 1927 (a nota está correta)

24 Nivôse CXXXVI  – 15 de janeiro de 1928 (a nota está correta)

CLVIII  –  1949 (sem nota)

Amostra: “Forçando a vista, Nelson vislumbrou doze ou quinze belonaves com chaminés cilíndricas a meio-navio e grandes protuberâncias semicirculares nos costados de estibordo e bombordo, onde se abrigariam, em tese, as ditas ‘rodas de pás’. Não gostou do que viu. Com aqueles perfis baixos, as belonaves dessa nova classe constituiriam alvos difíceis de alvejar com os canhões situados nos costados elevados de suas naus-de-linha”.

“Ao Perdedor, as Baratas”, de Antonio Luiz M. C. Costa (sim, o autor desta resenha), desenrola-se num Brasil alternativo onde os indígenas tiveram uma relação mais proveitosa com os portugueses, a revolução industrial aconteceu mais cedo e personagens da história e da literatura têm destinos inesperados. O primeiro esboço deste universo foi criado para a edição especial de CartaCapital nos 500 anos do Descobrimento e o conto “A Flor do Estrume”, nele ambientado, foi incluído na coletânea Steampunk da Tarja Editorial. Nesta noveleta, que se passa cerca de 70 anos depois do conto, o protagonista é um agente secreto de um grande país do Norte e tenta interferir numa eleição brasileira que pode mudar os destinos do mundo. Personagens do século XIX, como Francisco de Lima e Silva, Cosme Bento, Karl Marx e Richard Wagner contracenam com personagens de Oswald de Andrade e Ariano Suassuna e as baratas de Clarice Lispector e Franz Kafka, no contexto da literatura modernista do século XX e da Pauliceia Desvairada de um Brasil republicano e meio tapuia.

Amostra: “Nana resumia para ele tudo que lhe parecia impróprio e escandaloso naquele país. Arrastava de vez em quando um sotaque alemão, tinha um nobre ‘von’ no nome, mas cortava o cabelo como rapaz e exibia a curva dos seios e os joelhos com uma túnica curta. Como se fizesse de propósito para chocá-lo tanto quanto possível, ela pintava o rosto com padrões geométricos indígenas que combinavam com os do vestido e sugeriam uma serpente a se enroscar sobre o seu corpo e cabeça. Uma mistura obscena, grotesca, de civilização europeia e selvageria amazônica”.

“Auto do Extermínio”, de Cirilo Lemos, é uma noveleta particularmente exótica, com um pé no que tem sido chamado de “New Weird”, uma mistura de ficção científica, terror e fantasia praticada por autores como China Miéville e Jeff VanderMeer. Passa-se num cenário comparável ao Brasil dos anos 1920, mas quase irreconhecível. Enquanto comunistas e integralistas disputam apoio popular nas ruas, um general Protásio Vargas conspira para derrubar um senil D. Pedro III e seu primeiro-ministro Artur Bernardes, impedindo que a coroa seja herdada pelo filho bebê, de origem misteriosa. Um matador de aluguel, inspirado e aconselhado por uma estranha santa que só ele vê, é contratado para cometer um atentado. Seu filho, por sua vez, tem um super-herói invisível como conselheiro. Misteriosas sociedades secretas atuam nos bastidores.  Os Estados Unidos interferem para apoiar Vargas, com aviões e um robô fantasiado de xerife. É um cenário sombrio, intrigante e misterioso, que impõe sua própria lógica sem ser apenas uma alegoria ou caricatura – mas por vezes abusa da suspensão da descrença do leitor, como ao fazer Vargas e Bernardes se ameaçarem com pistolas em presença do Imperador e um suposto filho ilegítimo ser proposto como herdeiro do trono.

Amostra: “Crise de humor, pensou. Um grande eufemismo para os surtos de esquizofrenia que atingiam Dom Pedro III com frequência cada vez maior. O Imperador era flagrado em acaloradas discussões com a Imperatriz, defunta já há mais de quinze anos, ou então discutindo com interlocutores invisíveis os avanços da astronáutica nazista. Na maioria das vezes os casos eram abafados, mas burburinhos começavam a se espalhar para além da Corte.”

“Cobra de Fogo”, de Sidemar Castro, põe em jogo um D. Pedro III pela terceira vez nesta coletânea e Getúlio Vargas retorna como primeiro-ministro, mas de resto é bem original. Talvez seja a noveleta mais divertida da coletânea. Com certeza é a mais hábil no uso inteligente e criativo de clichês.

Nesta versão do século XX, houve uma Guerra Mundial de 1919 a 1929 que acabou com uma troca de bombas atômicas. Depois disso, uma Liga das Nações impôs uma “Pax Atomica” na qual os conflitos internacionais serão decididos de maneira supostamente esportiva, com corridas pelos quatro cantos do mundo entre locomotivas voadoras do tamanho de destróieres.

Trata-se de uma Corrida Mundial pela Amazônia. Alemanha, Áustria-Hungria (governada por Hitler), União Soviética (liderada por Trotsky), Japão, China, Estados Confederados (o sul venceu a Guerra Civil), Reino Unido, França, Holanda e outros países pretendem disputá-la e o Brasil e seus vizinhos querem conservá-la. O clichê hollywoodiano da “Corrida Maluca” cheia de truques sujos, popular de “A Corrida do Século” de Blake Edwards ao “Speed Racer” dos irmãos Wachowski, é levado aqui a um extremo insuperável e isso é só o começo da diversão, especialmente para os cinéfilos.

A corrida parte de Casablanca, com direito a uma noite no Rico’s Café ouvindo “As Time Goes By”. Citações e alusões a filmes famosos pipocam de surpresa a cada página, de “Stalker” de Tarkovsky ao “Apocalypse Now” de Coppola, com batalhas entre Dragões (voadores) da Independência, samurais e caubóis. A trama, por rocambolesca que seja, faz sentido e os personagens ficcionais e históricos se misturam muito bem, todos com vida e personalidade. Vale notar a participação de Olga Benário e Erwin Rommel pela Alemanha, Charles Lindbergh e Jesse James III pelos Confederados, Antoine Saint-Éxupery e Charles de Gaulle pela França e Amon Göth, o vilão de “A Lista de Schindler” pela Áustria-Hungria, além dos protagonistas brasileiros. É a noveleta mais cinematográfica em todos os sentidos, a mais digna de virar uma superprodução hollywoodiana.

Amostra: “O stalker parecia ter surgido do nada, mas Damocles não tinha dúvida de que estivera observando o tempo todo. Vestia um manto pretensamente antirradioativo e sob ele, podia-se ver um uniforme surrado e medalhas do Exército Vermelho. O rosto encapuzado permanecia nas sombras, mas dava para perceber que usava algum tipo de máscara de respiração”.

“Só a morte te resgata”, de Jorge Candeias, é a noveleta mais humana e de linguagem mais apurada, mas fica um pouco aquém de “Unidade em Chamas”, noveleta do mesmo autor na coletânea Vaporpunk da Draco que se passa num período anterior do mesmo universo ficcional. Na história anterior, a consciência do protagonista, o cenário social e político e a especulação tecnológica integravam-se perfeitamente. Nesta, esses três elementos estão como que apenas justapostos, sem marcharem em harmonia.

A mistura de prosaico com fantástico, de rudeza com sentimento, continua a lembrar José Saramago, em especial o “Memorial do Convento”. Mas neste mundo imaginário, o padre Bartolomeu de Gusmão e sua Passarola foram bem-sucedidos e conferiram a Portugal o pioneirismo na aeronáutica e uma tecnologia superior a seus rivais europeus. Na história anterior, a frota aérea enfrentava ao mesmo tempo os franceses e um conflito racial interno entre tripulantes brancos e os negros recrutados no Brasil e na África portuguesas.

Nesta, que se passa muito mais tarde, o império português se tornou uma vasta Confederação Lusitana multicontinental e multirracial, em guerra contra uma Aliança das Potências de nações europeias brancas e racistas. Jeferson, o protagonista, é um brasileiro do Sul, filho de um pequeno senhor de escravos. Inconformado com a abolição da escravatura, participou do movimento separatista da República Platina e depois de sua derrota, uniu-se aos “aliados” para lutar contra os “pretos” como piloto de caça, ao lado de alemães, ingleses, franceses e espanhóis. O lado dieselpunk da trama se concentra nas primeiras páginas, em que aliados e lusos travam batalhas aéreas com estranhas aeronaves. Mas Jeferson recebe uma carta (cujo conteúdo só será revelado ao leitor no final) e deserta depois de uma batalha desastrosa para seu lado. O restante da noveleta descreve suas peripécias para voltar ao Brasil disfarçado e a história se torna um drama pessoal para o qual essa interessante realidade alternativa é mero pano de fundo.

Amostra: “Jeferson aperta mãos, dá e recebe palmadas nas costas, encaixa dichotes sem fazer comentários. Hoje está em foco e sabe-o. Abatera dois dos albatrozes dos pretos e ainda conseguira danificar severamente um dos motores da enorme passarola de combate dos lusitanos, o que provavelmente contribuíra para que toda a flotilha inimiga voltasse para trás. Ainda não o sabe, mas no esquadrão só Lech Kramski, um prussiano que no seu país é considerado uma espécie de super-homem voador, conseguiu resultado semelhante”.