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Cultura

Crônica do Menalton

A verdade dos ditados

por Menalton Braff publicado 13/06/2014 14h50, última modificação 13/06/2014 15h21
Como os ditos populares não conseguiram resistir à perda da ingenuidade e passaram a ser contestados

A escola, como a conhecemos hoje, para alguns críticos já está decrépita, mas prefiro pensar que esteja na sua juventude. Estamos apenas a um tirinho de espingarda da Idade Média, isto é, apenas alguns poucos séculos nos separam, e isso em História não é grande coisa. Pois a verdade é que, na Idade Média, quando as crianças ainda não se queixavam por ter de ir à escola nem choravam para escovar os dentes, e era inexistente a necessidade de conhecer o alfabeto e seus correligionários, os valores éticos eram de transmissão oral. Os mais velhos transmitiam tudo que sabiam (e também muito do que não sabiam) aos mais jovens. Muito da sabedoria popular, como se costuma denominar esse tipo de conhecimento ingênuo da vida, era veiculada pelos ditados populares. A leitura de textos medievais é rica em exemplos dessas verdades.

Até hoje, crescemos ouvindo tais joias da tradição oral e, à força da repetição, os ditados tornam-se verdades indiscutíveis. Era isso o que estávamos discutindo ontem à tarde no bar do Ranulfo, lugar em que costumamos libar enquanto desvendamos os mistérios da raça humana.

Um amigo sentado a meu lado jogou sobre a mesa “Quem espera sempre alcança”. Os outros, em volta, fizeram silêncio, os olhos metidos pra dentro, que é onde se enxergam os pensamentos. Não esperei muito, porque o garçom já vinha trocando nossos copos, e retruquei com aquele Coronel, do Gabo, que esperou a vida toda em Macondo e nada alcançou. Alguns de nossos companheiros quiseram botar em discussão as questões de universal e particular, mas o tumulto não permitia considerações de lógica. Nem da maior e muito menos da menor.

Mais crítico do que os demais, o Adamastor, que não é muito chegado a madrugadas, enrugou a testa quando alguém disse que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Ele olhava para os lados como alguém que não entendeu o sentido do ditado. Mas não era nada disso, não. Seu espírito crítico é que lhe desenhava aquele ponto de interrogação no semblante.

Então começou a falar dos trabalhadores que, antes, bem antes de o sol nascer, já passam em ônibus lotados para a lavoura, para as indústrias, para o ganho do sustento. O neto, o pai e o avô vão juntos, presos ao mesmo destino de dureza e muitas carências.

Ante a perplexidade dos companheiros de mesa, ele arrematou: − Deus ajuda a quem cedo madruga, mas ajuda muito mais a quem não precisa viver do suor do próprio rosto.

E meu amigo gigante completou dizendo que os ditados, que durante séculos fizeram muitas cabeças, submetidos a uma crítica qualquer não conseguem resistir. Por isso, erguemos um brinde à perda da ingenuidade.

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