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Cultura

Crônica

A teus pés

por Alberto Villas publicado 10/06/2016 01h41
Como era grande o meu amor por Ana Cristina César
Acervo Ana Cristina Cesar/IMS
Ana Cristina Cesar

Imagem de Ana Cristina Cesar, reproduzida do livro "Inconfissões", de Eucanaã Ferraz, publicado pelo Instituto Moreira Sales

Ana C. era uma espécie de Caio F. de saias. Ela vivia pensativa, ele pensativo. Eram bons de prosa e verso. Gostavam de escrever longas cartas, diários, bilhetes e eram capazes de transformar uma gota de lágrima, de chuva ou de sangue em uma tempestade num copo d’água. Em letras miúdas, caprichadas, costuravam as palavras, cerziam, bordavam, chuleavam com a delicadeza de um Leonilson. 

Caio F. conheci de perto. Convivi com ele tempos bons, sentado ao meu lado na redação do Caderno 2. Fumava, observava a fumaça do cigarro subindo, olhava pela janela, puxava uns fios de cabelo, ironizava baixinho, voltava para escrever numa velha Olivetti. Tek Tek tek, parecia que até o barulho da máquina o inspirava. Ora mordia os lábios, ora sorria tímido, só pra ele. 

Ana C. não conheci pessoalmente, infelizmente. Li seus primeiros escritos num livrinho que chegou pelo correio, eu muito longe daqui. 

Hoje roí cinco unhas até o sabugo e encontrei no cinema, vendo Charles Chaplin e rindo às gargalhadas, de chinelos de couro, um menino claro. Usei a toalha alheia e fui ao ginecologista. 

Fiquei tão em êxtase que pedi a amigos do Rio que me mandassem seus livrinhos de produção independente. Chegaram luvas de pelica, cenas de abril, inéditos e dispersos, que um dia se perderam junto com o primeiro casamento. Hoje lamento a perda dessas pequenas obras-primas, de poucos centímetros quadrados, que devem estar com as páginas amareladas, cheirando a mofo, quiçá com furinhos de traça.

Ainda não havia o Google mas fucei tanto que acabei garimpando alguns poemas que ela ditava para a mãe aos seis anos de idade, nos idos de 1958, quando ainda nem sabia escrever, nem ler.

Na noite escura/Caindo o orvalho sobre a grande montanha/Que se avistava/No alto da estranha pedra/E toda a noite estava/Escura e silenciosa/E caindo a noite/Se debruçou/Para olhar o dia.

Era um tempo em que eu comia poesia praticamente todos os dias, um tempo em que as palavras sobre e toda ainda levavam um acento circunflexo em cima do o.

Tinha uma verdadeira paixão por tudo que ela escrevia e por suas fotografias, que me chegavam também pelo correio em recortes, a maioria do Jornal do Brasil. Coisa mais linda que ela era. 

Um dia, Ana C. foi pra Londres estudar literatura e ficou um pouco mais pertinho de mim. Toda vez que ia à cidade, procurava por ela nos parques, na chuva, nas janelas dos ônibus vermelhos e nas estações do underground, onde sempre achei que ela poderia estar. 

Fui colecionando seus escritos e acho, modéstia à parte, que hoje, tenho tudo que ela escreveu. Talvez não tenha alguns bilhetinhos íntimos que entregou em mãos para algum amor ou desamor. 

Quando entre nós só havia 
uma carta certa a correspondência 
completa 
o trem os trilhos a janela aberta 
uma certa paisagem 
sem pedras ou 
sobressaltos 
meu salto alto 
em equilíbrio 
o copo d’águ
a a espera do café.

Um dia, ela voltou pra casa com a mala cheia de ilusões, de sonhos, livros de Emily Dickinson, Sylvia Plath e Catherine Mansfield.

No dia 30 de outubro de 1983 colei numa página dos meus Cadernos da Família, um recorte de jornal com a notícia da sua morte.

A poetisa Ana Cristina Cesar, de 30 anos, uma das mais promissoras da geração 70, jogou-se do oitavo andar de um edifício na Rua Tonelero, em Copacabana.

Só tive forças para escrever junto ao recorte, os versos de uma canção de Caetano Veloso, que dizia assim:

Estilhaços sobre Copacabana

O mundo em Copacabana

Tudo em Copacabana

O mundo explode longe, muito longe

O sol responde

O tempo esconde

O vento espalha

E as migalhas caem todas sobre

Copacabana

Dentro da minha tristeza profunda, da minha melancolia meio Ana C., meio Caio F.,achei que tinha tudo a ver aquela letra de música ali. 

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