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A serventia dos livros

por Elias Thomé Saliba — publicado 26/04/2011 10h25, última modificação 26/04/2011 16h40
Escritos de Rubens Borba de Moraes revelam sua ação como modernista pragmático e seu trabalho intelectual em prol da bibliografia brasileira
A serventia dos livros

Escritos de Rubens Borba de Moraes revelam sua ação como modernista pragmático e seu trabalho intelectual em prol da bibliografia brasileira. Por Elias Thomé Saliba. Foto: Álvaro Costa/ Folhapress

Para que servem livros antigos? Rubens Borba de Moraes, o primeiro biblió-grafo brasileiro a ganhar reputação internacional, respondia à pergunta relembrando aquela divertida passagem na qual um banqueiro perguntava a um poeta: “Para que serve a poesia?” E esse lhe devolvia, certeiro: “Para o senhor, não serve para nada”. É de Borba de Moraes, um dos últimos intelectuais da geração modernista de 1922, que nos chegam memórias infelizmente incompletas, registradas em cadernos e deixadas em mãos de José Mindlin. Com o título de Testemunha Ocular (Recordações), elas saem por editora brasiliense com organização e notas detalhadas de Antonio Agenor Briquet de Lemos (Briquet de Lemos Editor, 308 págs., R$ 45).

Borba de Moraes (1899-1986), nascido em Araraquara, terminou o curso primário em Paris e continuou os estudos em Genebra, oásis na Europa sobressaltada com a Primeira Guerra Mundial. Lá estudou em um colégio de tradição calvinista, com professores que depois se tornariam nomes notáveis na psicologia e pedagogia, como Henri de Ziegler (1885-1970) e Edouard Claparède (1872-1940). Conheceu o escritor Romain Rolland, que lhe perguntava insistentemente sobre o Brasil, e a bailarina Isadora Duncan, com quem foi jantar depois de um espetáculo de dança.

Voltou para o País em 1919 e passou quase um ano “abrasileirando-se”. Até a língua teve de reaprender, pois só escrevia em francês. A primeira pessoa que procurou foi seu amigo de infância Mário de Andrade. Chegou aqui já com uma razoável bagagem de livros, que emprestava aos jovens reunidos todas as terças-feiras, entre 1921 e 1923, na casa do escritor. Os mais assíduos eram Guilherme de Almeida, Di Cavalcanti, Sérgio Milliet, Oswald de Andrade, Luis Aranha e Anita Malfatti. Relembra, com emoção, o brilho de Mário de Andrade recitando seus versos.

“Ele encontrava a entonação certa, variava o tom da voz, era um verdadeiro artista, sem o cabotinismo dos atores”, diz em uma passagem do livro. Certo dia, conta, o escritor modernista leu para o grupo o seu poema Noturno dizendo: “Luzes do Cambuci pelas noites de crime...”, mas quando chegou ao verso “Bat’assat ô furn...”, imitando um célebre pregão de um vendedor de batatas nas ruas de São Paulo, causou um deslumbre geral. E o jovem Borba de Moraes desfechou: “Mário, você vai mal. Se continuar com esta grandiloquência, vai acabar compondo o Hino Nacional”.

As memórias do bibliófilo ajudam também a calibrar o significado do modernismo paulista, recolocando-o em trilhas bem mais realistas. Com lúcida consciência do caráter fragmentado do século que começava, Borba de Moraes deixa no ar a ideia de que a arte moderna possuía apenas uma característica: não tinha realmente identidade. Ela seria a expressão mais sublime da fragmentação dos nossos sentidos, exacerbados pela revolução tecnológica que transtornara a feição das grandes metrópoles mundiais.

O intelectual não menciona diretamente o quadro brasileiro em seus escritos, mas por meio de referências irônicas nos leva a pensar nos destinos peculiares da aclimatação do modernismo cultural à modernidade manquitola e meio capenga do Brasil daquela época: “Queríamos modernizar a política. Assim como tínhamos ‘descoelhonetizado’ a língua brasileira, passamos a ‘desperrepizar’ o Brasil”, escreve, em referência respectivamente ao escritor Coe-lho Neto (1864-1934), por muitos anos o mais lido do Brasil, e ao Partido Republicano Paulista (PRP), que, fundado em 1873, representou a oligarquia dominante no estado de São Paulo durante toda a República Velha.

O futuro bibliógrafo teria sido ainda o único entre aqueles jovens iconoclastas com um perfil mais prático e organizador. Ajudou a planejar a Semana de Arte Moderna, ao arrecadar verbas, estimular os artistas e ajudar a conter a compulsiva vaidade do escritor Graça Aranha. Borba de Moraes só não participou do famoso evento modernista porque contraiu febre tifoide que quase o matou naquele crucial 1922.

O intelectual relembra, sempre de forma divertida, figuras e casos pitorescos da época. Conheceu o escritor suíço Blaise Cendrars (1887-1961) quando veio a São Paulo em 1924. Na companhia de Sérgio Milliet e Luis Aranha, recepcionou-o em Santos. Foi um constrangimento. As autoridades brasileiras impediram o desembarque de Cendrars porque ele não tinha um braço. Nenhum imigrante mutilado podia adentrar o solo brasileiro nessas condições, ainda que resultantes de um ferimento de guerra. Horas depois, com a intervenção de Paulo Prado, descendente de uma das mais influentes famílias paulistas, filho primogênito do conselheiro Antônio Prado, Cendrars desembarcou.

Borba de Moraes impressionou-se com a capacidade do escritor europeu em transformar qualquer fato mirabolante em história verossímil. Acha incríveis as descrições que ele fez da Amazônia, embora nunca tenha estado lá e “a maior árvore que contemplou tenha sido uma enorme figueira no jardim da casa de dona Olivia Guedes Penteado”.

O engajamento de Borba de Moraes, como segundo-tenente, em embates na região do Vale do Paraíba durante a guerra paulista de 1932, transformou-o no mais empedernido pacifista, como ele registra neste livro de memórias ao relembrar a chamada “guerra constitucionalista”: “Não há heroísmo em matar pobres diabos que estão padecendo o que você padece, suarentos e fedidos como você, enganados como você pelos discursos do que ficaram confortavelmente em casa falando, falando, falando. (...) Dá vontade de ir para bem longe e esquecer tudo, apagar esta passagem suja de nossa vida. Os políticos que fiquem com os proveitos, eles merecem, foram eles que fizeram toda esta bagunça imunda e sangrenta”.

Possuía rara capacidade de autocrítica, como se percebe na divertida análise de sua formação europeia: “Adquiri, para sempre, um senso agudo do dever e do cumprimento das tarefas que me cabem. Aprendi que chegar na hora marcada não é somente uma obrigação, mas uma prova de consideração pelo próximo. (...) Aprendi uma porção de princípios genebrinos bons e bonitos. Nem sempre, porém, os pude praticar rigorosamente, porque a carne é fraca e a carne do brasileiro é fraquíssima”. O que o transformou numa figura singular de homem altamente disciplinado, até em seu incansável amor pelos livros. Foi também um vaticínio sutil das agruras que enfrentaria por conta dessa dedicação. Desde 1935, quando assumiu a Divisão de Bibliotecas do Departamento de Cultura de São Paulo e fundou a primeira escola de biblioteconomia paulista, sua vida ficou associada aos livros e à história da biblioteconomia brasileira.

Nem sempre conseguiu aplicar por aqui, contudo, aqueles “princípios genebrinos”. O projeto arquitetônico da Biblioteca Municipal, a partir do qual acalentava criar um sistema integrado de bibliotecas, foi severamente modificado anos depois na gestão municipal de Francisco Prestes Maia. O prefeito é descrito por Borba de Moraes como figura “honestíssima”, mas passadista, “o último homem em São Paulo a usar a indumentária do século XIX: ceroula, botina e suspensórios”.

A gota d’água da encrenca com o então prefeito veio na época da inauguração do novo edifício. Para “enfeitar” o hall de entrada, Prestes Maia encomendou a estátua de uma mulher em pé, de camisola, a segurar um livro. Solicitou por escrito a Borba de Moraes, na ocasião diretor da biblioteca, que sugerisse uma frase para colocar no livro. Como o hall previsto era para a circulação e, portanto, não cabia colocar ali uma estátua, Borba de Moraes, já extremamente desgastado com as inúmeras alterações no projeto, sugeriu a infernal frase do escritor Dante Alighieri: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate”. Sua remoção do cargo foi imediata.

Menos de um ano depois, Borba de Moraes tornou-se chefe da divisão de consultas da Biblioteca Nacional e elaborou um relatório tão dramático da situação do acervo que o ministro da Educação, Gustavo Capanema, não permitiu a divulgação do texto, só conhecido 30 anos depois. Permaneceu três anos na Biblioteca Nacional até o momento no qual sua insistência (e um pouco de teimosia) nas reformas o fez entrar em conflito com o diretor Rodolfo Miranda. Mas seu desligamento das bibliotecas durou pouquíssimo, pois foi logo convidado a dirigir a Biblioteca da Organização das Nações Unidas, em Nova York, entrando assim para um item bem brasileiro das estatísticas, o da “exportação de talentos”.

Longe do País, Borba de Moraes sentiu a necessidade de organizar algo que a cultura brasileira não possuía, obras de referências bibliográficas para estudiosos e pesquisadores. Transformou-se nessa figura rara na cena brasileira que é o elaborador de bibliografias, ou bibliógrafo, no fundo um exímio produtor da matéria-prima da cultura. Foi um dos organizadores do famoso Manual Bibliográfico de Estudos Brasileiros, que reuniu os mais importantes intelectuais do País em 1949, compilando informações até hoje indispensáveis aos pesquisadores.

O manual, com mais de 5 mil referências sobre o Brasil, seguiu a mesma sina das outras bibliografias elaboradas por Borba de Moraes. Saiu originalmente em inglês e somente depois foi publicado no Brasil. A preciosa Bibliografia da Impressão Régia, reorganizada e completada pela historiadora Ana Maria Camargo, seguiu o destino das outras publicações e foi editada apenas postumamente. Só no ano passado saiu em português, pela Editora da Universidade de São Paulo, a Edusp, a sua Bibliographia Brasiliana, que há anos constitui padrão de referência internacional para bibliotecários, pesquisadores e livreiros.

Tudo isso talvez porque o obstinado e teimoso bibliógrafo sempre se recusou a aceitar a brincalhona advertência do seu velho amigo, o editor Octales Marcondes: “Rubens, você tem mania de escrever livro que não se vende”. Isso era apenas uma meia verdade, já que seu O Bibliófilo Aprendiz, um delicioso e indispensável guia para os amantes do livro, ganhou várias reedições e até hoje pode servir como excelente introdução ao universo da leitura. “Pode servir” porque, como naquela provocadora resposta do poeta ao banqueiro, a serventia depende sempre de quem faz a pergunta.•