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A primeira fornada de Cannes

por Orlando Margarido — publicado 16/05/2015 17h52, última modificação 17/05/2015 17h27
Termômetro para o que se verá nas telas nos próximos anos, festival está cada vez mais disputado. Conheça alguns destaques
AFP PHOTO / ANNE-CHRISTINE POUJOULAT
O diretor Gus Van Sant  e Matthew McConaughey

Unanimidade negativa, o novo filme do diretor Gus Van Sant (esquerda) com Matthew McConaughey é recheado de clichês

De Cannes (França)

Estou desde terça na Croisette, o endereço oficial do festival de cinema, mas só agora consigo tempo para o primeiro balanço dos dias iniciais da competição. O motivo é que a cada ano o calendário mais importante do cinema mundial, termômetro para o que se verá nas telas nos próximos anos, está cada vez mais disputado e não parece possível estar nas sessões de estréia para a imprensa tamanho o número de jornalistas. Isso ocorreu duas vezes comigo, o que resultará por enquanto numa apreciação capenga. Mas amanhã devo conseguir recuperar Saul Fia, ou o filho de Saul, o concorrente húngaro que muitos colegas me dizem ser o mais interessante até agora. Inclusive com fortes chances a premiação. O outro é, pelo contrário, uma unanimidade negativa. Tudo bem se não fosse Gus Van Sant, mas me contam ser The Sea of Trees um amontoado de clichês. Vou ver e volto aqui.

Mas vamos então ao que foi possível. A competição abriu com Kore-eda, cujo título em inglêé Our Little Sister. Em torno desta irmãzinha, a caçula, roda a surpresa da trama, que logo no início é desfeita. Três garotas vão ao enterro do pai, há muito afastado e casado com uma nova mulher, e descobrem ter uma irmã mais nova. Decidem adotá-la e o cotidiano, entre banal e algo revelador, vai uni-las numa convivência para enfrentar novos problemas. Mas nada muito instável, o que talvez seja o problema do filme. São questões da vida, da normalidade do dia-a-a-dia.  A inspiração em Ozu e seus dramas familiares é evidente, apenas que Kore-eda não tem o toque do mestre japonês para embalar seu painel com a mesma sutileza e sagacidade. E, claro, ele prossegue nos seus filmes que miram a infância, a adolescência. Não faz feio, mas foi um início frio.

Tanto mais se pensarmos no filme que Naomi Kawase apresentou este ano na paralela Certain Regard, depois do belo O Segredo das Águas visto ano passado na competição. É clara sua superioridade no trato das mazelas da gente simples, anônima, e talvez o diretor artístico do festival, Thierry Frémaux, deve ter se dado conta tarde da bobagem de ter feito a opção por Kore-eda na competição oficial. Em An, ou feijão, um comerciante de um doce feito a base da leguminosa conhece não só o sabor perfeito do que vende, mas também alcança uma forma de renovação pessoal ao contratar uma velha senhora e sua receita carinhosa do produto. Ambos tem um passado difícil de lidar, ele alcoólatra e ex-prisioneiro, ela diagnosticada com lepra na infância e internada num asilo para doentes. Aqui sim temos um trato a altura dos mestres do Japão.

Não seguiu muito melhor o segundo concorrente no mesmo dia. Matteo Garrone é um dos três representantes da Itália, um feito sem dúvida, mas não refletido inicialmente por seu filme. Il Racconto dei Racconti é uma fábula baseada nos contos sugeridos pelo título escritos por Giambattista Basile, que em certo momento vão se encontrar. A fantasia medieval, diga-se muito bem realizada e filmada na perspectiva barroca que Garrone tanto gosta, parte uma rainha que deseja a todo custo engravidar e aceita um pacto mortal com um feiticeiro, e o rei parte em busca do coração de uma criatura do fundo do mar. Há outros dois reis, um com sua filha que busca o homem perfeito para casar e outro, sedutor e maníaco por sexo, que corteja uma velha pensando se tratar de uma jovem de bela voz. Só mesmo o prestígio de Garrone, vencedor de prêmios aqui com Gomorra e Reality, e um elenco internacional formado por Salma Hayek e Vincent Cassel, entre outros, explica o filme na competição. Não se trata de condenar a extravagância visual e de peculiaridades do filme, como os animais delirantes, mas questionar a má evolução e previsibilidade do roteiro.

Para já ficar entre os italianos, Nanni Moretti nos apresenta um trabalho muito mais equilibrado e tocante com Mia Madre, exibido nesta manhã. Margherita Buy faz a diretora de cinema que enquanto roda novo filme se vê as voltas com a morte eminente da mãe. Seu mundo descamba, e para não pesar muito a mão no drama entra John Turturro, hilário como o ator americano canastrão e estrela. O próprio cineasta entra mais uma vez em cena no papel do irmão de Margherita. Ainda assim, achei que faltou algo de maior conteúdo para fazer valer o cinema tão marcante de crônica, irônico, de Moretti. Um bonito trabalho, contudo, com as recorrentes citações ao cinema, como Asas do Desejo. Ainda virá Paolo Sorrentino, também com um elenco peso-pesado, com Michael Caine e Jane Fonda. Há dois anos, o júri ignorou o ótimo A Grande Beleza. Quem sabe é sua vez agora.

Mais difícil é prever como poderá ser visto por um júri capitaneado pelos irmãos Coen o grego The Lobster. O diretor Yorgos Lanthimos já é conhecido do festival por sua excentricidade em filmes como Dente Canino. Ele se supera agora na fantasia envolvendo os solteiros, que num futuro próximo são obrigados a se casar num prazo determinado. Se não cumprirem, viram bichos. E Colin Farrell, barrigudo e sem apelo, já tem a sua escolha, uma lagosta. O processo inclui a internação numa casa oficial onde se deve achar o par ideal, enquanto se caça na floresta um bando de dissidentes fugitivos. Boas doses de humor negro, no entanto, não seguram todo o tempo a estranheza, e o filme não é mais que curioso.