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Cultura

Pauliceia Literária

A não ficção de Zlata Filipovic

por Marsílea Gombata publicado 05/09/2013 10h49
Escritora bósnia, que é destaque em festival literário em São Paulo, conta como conseguiu deixar zona de guerra por causa de seu diário
Divulgação / Bel Pedrosa
zlata

Zlata participa de mesa ao lado da escritora e crítica literária Noemi Jaffe, em 22 de setembro

Quando tinha 11 anos e decidiu escrever sobre os horrores da guerra na Bósnia, a ideia de Zlata era fazer um diário para registrar as mudanças e medos aos quais era submetida diariamente em Sarajevo. O relato fez mais do que ela imaginava: funcionou como um passaporte para que ela e sua família conseguissem deixar a cidade sitiada pelo cerco inimigo, que começou em 1992 e se estendeu por longos 43 meses.

O interesse de uma editora da França em publicar O Diário de Zlata (Companhia das Letras) levou o governo francês a mobilizar militares na ONU para Zlata Filipovic e seus pais saíssem da capital bósnia. “Meus pais perceberam que, depois de quase dois anos de guerra, talvez aquela fosse uma oportunidade para mim de estar salva e ir para a escola”, lembra Zlata em entrevista a CartaCapital. “Ninguém pode nos ajudar até eu conseguir chegar ao publisher francês Robert Lafon, bastante influente na França. Começamos a conversar com os envolvidos, a falar com as Nações Unidas e o governo francês até que conseguimos sair da cidade de onde ninguém saía.”

Foi quando um enviado do governo francês bateu à porta de Zlata em meados de novembro de 1993 dizendo que voltaria na manhã seguinte para buscá-la, juntamente com seu pai e sua mãe, e levá-los ao aeroporto. As coisas, no entanto, não saíram como o planejado. Três semanas depois, uma segunda tentativa deu certo. O emissário voltou à casa de Zlata e anunciou o plano que funcionaria na manhã seguinte: militares franceses levaram a família até o aeroporto, para que embarcassem em um avião militar utilizado para levar comida e ajuda humanitária ao país em guerra nos Bálcãs. O avião deixou a Bósnia com destino à Itália, onde Zlata, seu pai e sua mãe pegaram um novo voo para Paris. “Estávamos em uma manhã em Sarajevo, na zona de guerra, e algumas horas depois havíamos chegado a Paris, na Cidade Luz, dias antes do Natal. Foi memorável.”

No diário escrito entre 1991 e 1993, responsável por salvar Zlata e sua família da guerra, a menina nascida em 1980 traz um emocionante relato pessoal sobre o cotidiano destroçado pelo conflito. "Domingo, 5 de abril de 1992. Dear Mimmy. Estou tentando me concentrar nos deveres (um livro para ler), mas simplesmente não consigo. Alguma coisa está acontecendo na cidade. Ouvem-se tiros nas colinas. [...] Sente-se que alguma coisa vai acontecer, já está acontecendo, uma terrível desgraça." A obra, originalmente publicada em servo-croata pela Unicef, foi editada no mundo inteiro e projetou Zlata mundialmente. Anos mais tarde, em 2008, ela ajudou a organizar ao lado de Melanie Challenger, em 2008, o livro Vozes Roubadas – Diários de Guerra (Companhia das Letras), no qual são resgatados 14 diários de conflitos escritos por crianças e jovens que vivenciaram conflitos como a Primeira Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã ou mesmo no Iraque.

A escritora é uma das atrações no festival Pauliceia Literária, evento em São Paulo do qual participa ao lado da escritora e crítica literária Noemi Jaffe, em 22 de setembro. Fã do conterrâneo Aleksander Hemon (um dos destaques da última Flip, em Paraty) e de autores clássicos como o russo Vladimir Nabokov, Zlata conta que tem São Paulo como uma de suas cidades preferidas: “Estive em São Paulo em 2008 por conta da Bienal do Livro. Foi uma experiência incrível, na qual conheci pessoas gentis e amáveis. Não vejo a hora de voltar.”

No encontro literário, Zlata deve abordar heranças da guerra em sua vida, assim como episódios dolorosos, como a difícil adaptação à qual ela e sua família foram forçadas. “Foi especialmente duro deixarmos nossa família e todos os amigos para trás em circunstâncias dificílimas, enquanto nós estávamos bem”, lembra. O sentimento de culpa era acompanhado da incansável lembrança das condições humilhantes a que eram submetidos em Sarajevo: sem comida, sem água, sem eletricidade, com pessoas morrendo e as dezenas de bombas que caíam diariamente na cidade. “Quando dissemos adeus aos que ficaram, não sabíamos se os veríamos de novo. Algumas pessoas que deixamos para trás nunca mais voltamos a ver porque acabaram morrendo. Foi muito doído sair de Sarajevo para Paris naquela época do ano, quando tudo está cheio de luzes, todos parecem felizes e as famílias estão unidas, porque havíamos acabado de nos separar de todo mundo que gostávamos.”

Do conflito, Zlata carrega memórias e traumas. A guerra teve início em 1992, quando a Bósnia declarou sua independência em meio à desintegração da Iugoslávia, movimento não aceito pelo Sérvia. Do impasse surgiu um conflito envolvendo três grupos étnicos e religiosos: sérvios cristãos ortodoxos, bósnios muçulmanos e croatas nascidos na Bósnia, grupo do qual Zlata faz parte. Vinte e um anos depois de deixar a zona de guerra, ela não consegue lidar com ruídos altos, como explosões de fogos de artifício. “Qualquer barulho muito alto é extremamente difícil para mim. Mexe comigo e me machuca muito”, conta. “Outro ponto é que depois de Sarajevo eu nunca mais sonhei. Antes da guerra eu sonhava muito, mas hoje sonho talvez uma ou duas vezes ao ano. Uma psicanalista me dizia que isso acontece porque meu consciente estaria me protegendo do meu subconsciente, de sonhos que podem ser difíceis de eu entrar em contato.”

Vida real. A vivência na guerra também moldou a personalidade de Zlata, que se graduou em direitos humanos por Oxford e leva adiante a paixão por histórias não ficcionais, na literatura e em documentários, como Here Was Cuba, no qual aborda entrelinhas e bastidores da Crise dos Mísseis em 1962.

“Sou muito movida pela não ficção, pela vida real, por experiências reais. É uma forte razão para explicar por que eu trabalho com documentários”, explica ao contar que um próximo livro tratará de questões como identidade, deslocamentos e refugiados.

Na época em que seu diário ajudou dar publicidade aos horrores do genocídio étnico em seu país, Zlata foi chamada de Anne Frank bósnia, em alusão à judia de origem alemã morta em um campo de concentração nazista aos 15 anos de idade. O título, no entanto, nunca a agradou. “Sou um pouco supersticiosa e ser comparada a alguém que teve um final tão triste me deixava preocupada com a possibilidade de ter a minha vida terminada de maneira tão trágica também”, conta. “Além disso, infelizmente depois surgiram Anne Franks em mais lugares como Afeganistão, Iraque e Síria.”

Apesar de ter vivido 18 de seus 32 anos na Irlanda, Zlata conta que Dublin não é sua casa como considera Sarajevo. A capital bósnia continua sendo o lugar ao qual pertence e destino para onde vai sempre que pode, apesar das sequelas deixadas pelo conflito. “A atmosfera política ainda é tensa e muito carregada, com rivalidades e divisões. As cicatrizes não são apenas físicas, mas também políticas, econômicas, culturais e sociais”, observa. “Antes havia muitos casamentos inter-étnicos, que hoje são bem mais raros. Depois da guerra, muitos lugares que comportavam diferentes etnias, hoje suportam apenas uma. Essa mistura foi afetada com a guerra. Talvez de forma definitiva.”