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Cultura

Crônica

A muralha do silêncio

por Menalton Braff publicado 08/01/2015 16h23, última modificação 11/06/2015 18h47
O interessante da história não é o destino das muralhas, mas o comportamento da imprensa e seu silêncio sobre a muralha construída pelos Estados Unidos para isolar-se do México
Amanda Lucidon/ TWH
Família Obama

A família de Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, em visita à muralha da China

Quando a imprensa dos Estados Unidos vituperava o muro de Berlim, enquanto ele existiu, sempre tive a impressão de que era uma imprensa livre combatendo um muro que se fazia prisão. Como decorrência dessa impressão, me parecia que ela abominava todos os muros, porque todos se fazem prisão, pelo menos para um dos lados, e muralha sempre tem os dois, o de dentro e o de fora. Cheguei a escrever um romance sobre isso.

Parece que me enganei.

Todos os jornais, daqui e de outras plagas, noticiaram a aprovação, no senado norte-americano, de uma lei que permitia ao George Bush, o filho, aquele mesmo que antecedeu o atual presidente no trabalho de solapar muitas privacidades, acabando com a liberdade de comunicação pela Internet e pelos telefones, a construir uma muralha de quinhentos e noventa e cinco quilômetros para isolar-se do México. E ele construiu, sem se preocupar com metafísica nenhuma. É a repetição de uma história bem conhecida. No norte da Inglaterra, entre Newcastle e Carlisle, o Império Romano construiu uma muralha para evitar a invasão dos pictus, ou caledônios, hoje conhecidos pela simpática alcunha de escoceses, que naquela época eram considerados povos bárbaros e excessivamente agressivos.

Em declínio o Império Romano, os nove mil soldados que montavam guarda junto à muralha foram recolhidos, e a barreira, esquecida, transformou-se em imenso depósito de material de construção. Era nela que o povo de Newcastle se abastecia de pedra para a construção de suas casas e igrejas. Segundo algumas notícias, esta predação está proibida pelas leis britânicas, mas sabe-se que nem todo britânico é um fiel cumpridor das leis. Um passarinho me cochichou que as pedras da muralha ainda hoje se mudam para lugares mais úteis. Pelo menos na opinião de quem precisa construir.

Me parece que é este o destino de todas as muralhas.

Mas o interessante da história não é o destino das muralhas. A velha muralha da China, por exemplo, vem resistindo. O interessante é o comportamento da imprensa. Nem uma única palavra, silêncio absoluto, acerca deste novo atentado às liberdades humanas.

Será que uma muralha de quinhentos e noventa e cinco quilômetros passa despercebida pelos argutos olhos da mídia? Ou tem aí algo mais. Quando Israel isolou de modo violento muita gente na Palestina, as notícias também sempre foram lacônicas, sem nenhum julgamento contra tampouco a favor. A impressão, agora, é que às vezes alguns fatos são naturalizados e quase nunca se vislumbra com que propósito.

Quanto a mim, posso me considerar muito feliz por não viver em Berlim, na China, na Inglaterra, tampouco no México. Vivo aqui, no Brasil, onde muralhas, se as há, não são assim tão sólidas como em outras partes.

(A chacina em Paris não coube aqui.)