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A morte em contracapa

por Eduarda Freitas — publicado 16/06/2011 14h51, última modificação 16/06/2011 16h19
Um ano depois, a colunista Eduarda Freitas escreve suas impressões sobre a morte do escritor português José Saramago

Eu estava a almoçar quando li na televisão que tinhas morrido. (Posso tratar-te por tu, não posso?). Dizia “notícia de última hora”. Eu já trabalhei na televisão. Sei que as notícias de última hora geralmente são da hora de trás. Que é a última. Ou de antes dessa hora. São da hora que der mais jeito para deixar o espectador chocado. (Hoje passou à minha frente um carro com uma frase escrita na mala: desliga a televisão, liga o cérebro).

Logo que soube da tua morte, percebi a eternidade. Lembrei-me de imediato do velho autocarro em Cuba com o calor a fazer derreter os assentos e o rapaz colombiano com o livro Ensaio sobre a Lucidez na mão. E do meu sorriso a querer chegar ao pé dele, ao pé de ti, e dizer-lhe: eu conheço-o! Eu conheço-te! De livros. De pátria. De ideias. De músicas. De letras.

No dia do teu funeral fiquei em casa.

Ouvi Bach para te homenagear. Limpei as memórias, rasguei o que estava a mais.

Nesse dia, a minha avó ainda estava viva.

(Ias gostar tanto de ter conhecido a minha avó).

Ela nunca te leu, porque eu acho que a minha avó nunca leu um livro.

Ela foi dois dias à escola e aprendeu a escrever sozinha. Escrevia “cenoiras”, exatamente como dizia.

A minha avó tinha os olhos azuis. E a tua?

Gosto sempre de ouvir, de ler, o discurso de quando ganhaste o prémio Nobel. Os teus avós estavam na primeira fila das tuas memórias e dos teus agradecimentos.

A minha avó está nos meus dedos.

Sabes, acho que os avós são eternos, como são eternos os livros, os poemas, as músicas e os sorrisos. E se são eternos, são divinos.

No dia do funeral da minha avó, uma amiga enviou-me a carta que tu escreveste à tua avó Josefa. (A minha avó é Maria).

Li-a como quem abraça.

Li-a à minha mãe, como quem partilha um segredo.

Foi de intimidade que se fez o momento.

Faz um ano que foste embora, seguiste viagem, mas eu vejo-te todos os dias nas letras que inventaste e que mais não são do que o espelho dos nossos dias. Os dias de um Portugal ( de um mundo…?) à deriva. De uma cegueira estonteante à procura não sabemos bem de quê. De uma perdição individual que se multiplica, que se cola aos ossos.

E o que queremos?

E o que quero?

Tenho tantas saudades da minha avó.

Li-te no Ano da Morte de Ricardo Reis em três dias de Páscoa.

Na Páscoa do ano passado a minha avó entrou em casa vinda do hospital, enquanto as bisnetas, as minhas primas pequeninas, lhe batiam palmas. E ela levantou ligeiramente a cabeça da maca, e agradeceu, como um artista em palco que engole as lágrimas.

Avó, tenho tantas saudades tuas.

Avó, ainda te lembras de mim?

Porque morrem os avós?

Porque morreste tu, que escrevias a verdade?

Queria mais livros teus. Preciso de mais palavras tuas.

Preciso das tuas dúvidas e das certezas da minha avó. Da certeza que as minhas mãos são iguais às dela. Que o desenho dos nossos dedos e das nossas unhas foi feito a lápis de cera.

Um ano. E escreveste que demoramos nove meses a morrer.

Não queria que tivesses morrido, avó. O teu jardim está tão bonito…

Uma vez perguntaste-me que se ainda estarias viva quando a nossa gata fosse velhinha. Eu disse-te que sim, claro, que sim. Tu disseste-me que não, claro que não, porque não se pode viver para sempre.

Mas pode, não pode?

Pode, não pode?

Queria tanto fundir a morte com a vida e sentir que as duas coisas são uma só, capa e contracapa.

Mas não consigo.