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À mestra Clarice com carinho

por Moacyr Scliar — publicado 28/02/2011 16h10, última modificação 28/02/2011 17h34
Em outubro de 2008, Moacyr Scliar escreveu em Carta na Escola uma Carta ao Professor sobre a obra de Clarice Lispector. Leia

O escritor gaúcho Moacyr Scliar, falecido na madrugada do último domingo 27, colaborou por diversas vezes nas revistas Carta na Escola e Carta Fundamental, ambas editadas por CartaCapital. Abaixo, "À mestra Clarice com carinho", Carta ao Professor escrita por Scliar sobre a obra de Clarice Lispector.

À mestra Clarice com carinho

Aprender com prazer. É isto que Clarice nos ensina. É o que todos os verdadeiros mestres sabem e praticam

Clarice Lispector era surpreendente em tudo, inclusive nos títulos que dava às suas obras. Exemplo é a curta (155 páginas) novela publicada pela primeira vez em 1969 e que se chama Uma Aprendizagem, ou O Livro dos Prazeres.

A história é enganadoramente simples. Loreley, Lori, professora primária de família abastada está apaixonada pelo professor de filosofia Ulisses. Ela não é uma mulher inexperiente; teve vários casos. Mas fica claro que o seu sentimento por Ulisses é algo transcendente, que exige uma profunda transformação pessoal, processo no qual Ulisses funciona como seu mestre. Trata-se de descobrir o amor completo, total, que existe para além da atração meramente sexual. Uma trajetória que explica inclusive os míticos nomes dos personagens. Na mitologia germânica Loreley é uma espécie de sedutora sereia das águas. Já Ulisses é o indômito navegador que não hesita em aventurar-se por caminhos desconhecidos (e que, a certa altura, é tentado pelo canto das sereias, mas dá um jeito de resistir a elas).

A esta descoberta Clarice denomina de “uma aprendizagem”. O que Lori precisa aprender? O que é que ela não sabe? Clarice responde: “Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós. Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e segurança por não termos um ao outro.

Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe”. Este é o problema. E como se resolve? “Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro.” E conclui: “Aprendi que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer”. O que está nos dizendo Clarice? Está enfatizando o valor da entrega, do amor como antídotos para a falsidade e a hipocrisia. “Não temos amado acima de todas as coisas.” O Primeiro Mandamento fala em “amar a Deus acima de todas as coisas”. Não só Deus, diz Clarice, amar a tudo e a todos, entregar-se; não adianta amontoar “coisas e segurança”, não adianta buscar alegrias catalogadas, estereotipadas. É preciso falar no que realmente importa, por arriscado que seja. Apesar dos riscos, apesar dos obstáculos, apesar dos pesares, deve-se viver, deve-se comer, deve-se amar, deve-se morrer – morrer, sim; é parte da vida.

É claro que o livro descreve uma aprendizagem. E é muito significativo que esta aprendizagem implique prazeres: o prazer da entrega, o prazer de amar, mas também o prazer da própria aprendizagem. Aprender com prazer é o princípio básico de toda a pedagogia. É isto que Clarice nos ensina. E é isto que todos os verdadeiros mestres sabem e praticam.