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Cultura

Editorial 2

A memória de Bardi

por Mino Carta publicado 16/09/2011 10h02, última modificação 16/09/2011 10h53
O Brasil silencia a respeito de quem doou um tesouro de valor inestimável ao País. Ou o relega ao esquecimento

Bardi, Pietro Maria por decisão dos pais, Pietro simplesmente, ou “o professor”, para os amigos, costumava usar suspensórios e um gesto comum o punha a colocar os polegares debaixo das tiras elásticas como a garantir que não alçaria voo. Lembrava-me a seringueira a mostrar raízes extraídas do fundo da terra qual fossem as amarras que seguram no solo o balão de Montgolfier. De todo modo, igual aos balões, Bardi podia voar.

Conheci o “professor” na noite de Natal de 1946, levado por meus pais à ceia oferecida por amigos em uma casa do Jardim Europa, ele vinha de Buenos Aires juntamente com a mulher, Lina, 20 anos mais nova. Na Argentina, onde organizara uma exposição de pintores italianos contemporâneos, o alcançara o convite de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados do Oiapoque ao Chuí, para uma conversa em São Paulo, que se daria poucos dias após.

Não sei quais razões movessem Chatô, certo é que pretendia instalar sobre o Trópico de Capricórnio um importante museu de arte, e pela mão de Bardi, autoridade mundial em matéria, e em outras mais. Marcaram uma nova conversa para dali a menos de três meses, e foi o acerto final. O Masp, inicialmente abrigado em uma área espaçosa o bastante no prédio dos Diários à Rua 7 de Abril, foi enfim transferido para a Avenida Paulista em 1968, quando Lina completou a construção do precioso invólucro de concreto, vidro e aço, obra-prima arquitetônica.

O Masp foi muito além das expectativas. A se aproveitar da quadra conturbada do imediato pós-guerra em uma Europa confusa e aturdida, o formidável “professor” montou em poucos anos uma coleção prodigiosa digna das praças mais famosas. E com uma despesa modesta a se considerar o valor das obras, entre elas até um pequeno Rafael, a comprovar que Bardi sabia voar. Vieram Ticiano, Goya, Chardin, uma enxurrada de impressionistas, quatro Van Gogh, Picasso, Modigliani etc. etc. Alguns Cézanne, Manet, Monet, figuram entre os mais importantes no confronto com os melhores acervos do planeta, hoje avaliado o do Masp em bilhões de dólares.

Chatô e Bardi formaram uma dupla afinadíssima, e aquele soube como municiar a operação. À época, com ímpeto udenista, houve quem alegasse que o dono dos Associados não hesitava em chantagear alguns graúdos paulistanos para obrigá-los a financiar esta ou aquela obra. É razoável supor que ele conhecesse a fundo as mazelas da sociedade bandeirante, de sorte a explorá-las a bem do seu plano, conhecia também, e a respeito não sobra dúvida, o provincianismo e o narcisismo de damas e cavalheiros. O que de mais retumbante, e de seguro registro nas colunas sociais, poderia haver além da doação de um Picasso, ou de um Goya, à cidade de Piratininga?

A maledicência no caso de Bardi tornou-se campanha jornalística, enxergava nele um fascista premiado com um rendoso asilo no País, além de carcamano metido a sebo. Como de hábito, borbulhava à tona a tradicional ignorância nativa misturada com xenofobia quatrocentona. Hoje os brasões contam bem menos do que então, mas à ignorância junta-se o adubo da falta de memória. Entre 12 e 14 deste setembro realizou-se entre os auditórios da Unicamp e do Masp o 1º Simpósio Internacional Pietro Maria Bardi, construtor de um novo paradigma cultural. Surpreendo os leitores ao dizer que a mídia ignorou o evento por completo?

O simpósio convocou belos espíritos, entre eles dois críticos e professores de história da arte italianos, Zeno Birolli e Paolo Rusconi, além de um grupo de especialistas brasileiros, encabeçados pelo professor Nelson Aguilar. Falou-se da amizade que ligou o “professor” a Ezra Pound, Le Corbusier, Ardengo Soffici, Carlo Carrà, e sua importância na consagração fora do Brasil de Portinari e Lazar Segall. Não faltou público, para se contrapor ao silêncio da imprensa e ao descaso das autoridades. É admissível que o governo do estado de São Paulo e as prefeituras da capital e de Campinas não se façam representar, quem sabe pelos seus próprios titulares?

Neste nosso Brasil evidentemente é, assim como se dá com o Masp, hoje entregue à incompetência de quem carece de nível para a missão. Diante da indiferença geral. Já não cabem espantos. Deixemos que os experimentem, admirados, os visitantes do Masp, os turistas estrangeiros, diante de um monumento da arte e da cultura, tão maior e melhor, digamos assim, no seu gênero, do que o Brasil.

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