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Cultura

Crônica do Menalton

A invenção da roda

por Menalton Braff publicado 03/11/2014 05h28
A pressa dos jovens é saudável, mas precisa ser acompanhada de cautela

Isto me acontece com certa frequência, mercê de minhas atividades magistrais (Depois de escrever a palavra “magistrais”, percebi que havia muito de empáfia no adjetivo e mudei para “atividades no magistério”. Ah, os cognatos!). Jovens que me assediam querendo saber, então, como é que é? Eles descobriram que andei publicando alguma coisa, e isso pode causar certo mal-estar inexplicável a certas pessoas. O mundo do livro, em um país onde ele é artigo de luxo reservado a poucos privilegiados, conserva umas sombras misteriosas com que a moçada não se conforma e tenta iluminar. Então muitas vezes sou convidado a me fingir de lâmpada. Pobre de mim, que mal consigo ler o que me vem fustigando o oco da cabeça.

O último que me atacou com suas dúvidas queria saber se era possível alguém escrever um livro sem nunca ter lido algum. A pergunta me embaraçou, pois nunca tinha pensado na possibilidade. Ainda se ele me perguntasse se era possível construir um motor a explosão sem conhecer mecânica, creio que poderia responder que não e pronto. Mas nossa obrigação, os que já passamos da adolescência, é incentivar os mais jovens a usarem sua criatividade, relutei um pouco e acabei respondendo que, bem, impossível, inteiramente impossível não é. Seus olhos brilharam vitoriosos. E logo imaginei que fosse um de seus projetos. Meu lado mau, entretanto, não deixou barato. Mas um livro desses eu não leio, acrescentei para estragar sua alegria.

O jovem me olhou aborrecido antes de perguntar por quê.

Contei-lhe, à guisa de resposta, a história do Adamastor, que um dia me chegou derramando felicidade pelos olhos. Olhe só, ele me disse, cravando um prego em uma tábua, depois amarrando uma ponta de barbante no prego e a outra em um lápis, é possível desenhar uma figura geométrica perfeita. Sua descoberta parecia fabulosa. Cortando-se a tábua exatamente na linha traçada pelo lápis, obtém-se um objeto que pode ter muitas utilidades. Dei uns tapinhas no ombro do Adamastor e fui cuidar da vida.

Meu jovem inquisidor perguntou: − E daí?

Ah, juventude apressada, quer chegar ao último degrau sem ter escalado o primeiro. Existe muita gente pensando que pode inventar a roda com um prego, uma tábua, um lápis e um barbante. Tem muita gente achando que vaca é uma garrafa gorducha onde vem o leite. A pressa dos jovens pode ser saudável, mas é preciso, de vez em quando, tomar uns goles de cautela. E quando a pressa propõe que se escreva um livro sem ter jamais lido algum, o melhor que se faz é ir cuidar da vida.

Tenho a impressão de que ele saiu dali e foi comprar seu primeiro livro.