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Crônica do Menalton

A inveja: o maior dos meus pecados

por Menalton Braff publicado 11/04/2014 12h08
Vocês não podem imaginar como invejo alguns cronistas, como é o caso do Deonísio, sobretudo nestas épocas em que o futebol é assunto obrigatório
Dr. Motte/Flickr
Futebol

Vocês não podem imaginar como invejo alguns cronistas, como é o caso do Deonísio, sobretudo nestas épocas em que o futebol é assunto obrigatório

De todos os meus pecados, que não são poucos, a inveja talvez seja aquele que terá maior peso na minha condenação aos fogos infernais. Vocês não podem imaginar como invejo alguns cronistas, como é o caso do Deonísio, sobretudo nestas épocas em que o futebol é assunto obrigatório. Enquanto ele fala de futebol, e fala com propriedade, porque conhece, fico meio cabreiro no meu canto, calado, com medo de dizer besteira. Não posso e não devo me meter a falar daquilo que não entendo. Tempos atrás o Deonísio da Silva enviou-me por e-mail uma crônica linda e divertida em que futebol e filosofia se cruzavam na rapidez com que ele costuma nos driblar. Fala de acertos e desacertos de técnicos e jogadores com a segurança que me mata de inveja. E é só por inveja que hoje resolvi enfiar meu bedelho no assunto.

Como acontece com a imensa maioria dos brasileiros, o futebol sempre esteve presente em minha vida, mesmo quando procurei ignorá-lo como prática esportiva ou desprezá-lo como paixão. Das primeiras recordações de minha infância em que ele aparece, lembro-me de um álbum de figurinhas, que vinham envolvendo um tipo de bala. Esse álbum, com suas cores, suas imagens e seus nomes, me fascinou durante a infância. Foi nele que me escolhi colorado. Tesourinha era o grande ídolo. Contavam-nos proezas inimagináveis desse artista da pelota. Em uma, de que me lembro, o Tesourinha, do meio do campo, vai até a área inimiga (provavelmente área gremista) sozinho, cabeceando para ele mesmo e chuta de pé direito marcando um gol. Ora, direis, é lenda. Pois sim, mas e o que seria das crianças se não fossem as lendas?

Uma coisa de que o Deonísio não sabe a meu respeito, é que também eu estudei em colégio interno. Como não lembrar aquela aventura de uns dez garotos (desobedientes, como quer meu querido e invejado cronista)  pulando os muros do colégio e esgueirando-se por um eucaliptal até as ruas próximas que nos levavam ao bar onde veríamos Didi, Ademir, Barbosa e tantos outros? Como não lembrar a dor e a decepção de ver um Puskas comemorando a vitória? Dizem que o Didi deu uma chuteirada na cabeça do húngaro, depois do jogo, no vestiário. E aquela chuteirada, meu caro Deonísio, nos lavou a alma, salvou a honra nacional. Nos refizemos como seres humanos, nos recompusemos em nossa dignidade vilipendiada, como aquele oficial francês, do Victor Hugo, que salvou a honra da França com uma única palavra: merde.

Em 58 veio o Pelé, que nos deu tantas glórias e algumas vergonhas, principalmente nos últimos tempos. Depois, Amarildo; o Garrinhcha, nem se fala. Nossa mais pura alegria. Amar o Garricha chegava a ser covardia. Como não amá-lo? Os dribles moleques, as besteiras ingênuas, o menino que não crescia. E quantos outros ídolos vieram como herdeiros do Tesourinha?

Muitas copas se passaram desde aquela do Puskas. Muitos treinadores se sucederam. Para minha vergonha, nunca consegui entender direito o que esses homens fazem ali ao lado do campo. Acho que o papel deles termina na escalação. E como não entendo também de jogadores, o que o Felipão mandar para dentro do campo vai ter minha torcida. Se ele esqueceu alguém, se substituiu errado, se retrancou ou atacou, isso é coisa de especialista, ou seja, de duzentos e um milhões, trinta e dois mil, setecentos e quatorze brasileiros. Minto: duzentos e um milhões, trinta e dois mil, setecentos e treze.

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