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A invasão insidiosa

por Menalton Braff publicado 29/10/2014 09h05
O que se prevê, e não para um futuro remoto, é que o inglês perca sua hegemonia nos EUA e tenha de disputar com o espanhol a condição de língua oficial
ep_jhu/Flickr
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Imaginem-se os netos de Barak Obama estudando em uma dessas escolas: English as a second language

Em geral quando se pensa na invasão do Império Romano, atribuída aos bárbaros, imagina-se uma horda de homens de cabeleiras loiro-sujas montados em cavalos semi-selvagens que, a galope e aos gritos, ultrapassa as fronteiras do Império devastando plantações de trigo, destruindo pontes e estradas, ateando fogo nas aldeias, estuprando belíssimas e virginais camponesas romanas, assando e comendo porcos inteiros com suas respectivas buchadas. Enfim, invasão de bárbaros deve ser uma invasão bárbara. E nossa imaginação empresta algumas barbaridades às invasões. Ah, sim, porque não foi uma invasão, foram muitas.

Nada disso, meu caro. Os bárbaros (germanos, hispanos, francos, borgúndios, vândalos, anglos, lombardos, godos, saxões e tantos outros) na realidade foram entrando. Devagarinho assim como quem não quer nada. Foram séculos de lenta e despercebida penetração, de povoamento de regiões desabitadas, de submissão a Roma. Algumas fronteiras foram estabelecidas, como o caso da Muralha de Adriano e aquela paliçada inútil na Espanha. Casos isolados. Em muitas regiões eles já se misturavam a tal ponto com a população genuinamente romana que ninguém mais sabia quem era quem. No século III começa a questão militar, a agricultura entra em crise, os romanos de sangue puro têm no frumento a garantia de sua sobrevivência e se encantam com a dolce vita, que a exploração das colônias proporciona. Navios e mais navios descarregam trigo nos portos romanos, trazidos cada vez de mais longe. O império começa a não imperar mais. Os bárbaros já estavam lá dentro de longa data. Suas línguas já estavam misturadas ao latim. Alguns imperadores romanos já foram espanhóis, ou seja, de uma região bárbara, como Trajano e Adriano.

Tal lembrança me ocorre depois de uma conversa com um amigo que recentemente voltou de viagem de estudos aos Estados Unidos. Falava-me outro dia o amigo a respeito do crescimento da população hispânica no país do Tio Sam.

Já existem muitas escolas de línguas nos Estados Unidos oferecendo English as a second language. Em alguns estados norte-americanos, vive-se muito bem sem saber falar inglês, tal a predominância da população de origem hispânica.

O que se prevê, e não para um futuro remoto, é que o inglês perca sua hegemonia e tenha de disputar com o espanhol a condição de língua oficial. A língua que hoje é predominante no mundo, podendo-se considerá-la a língua diplomática universal (como foi no passado o latim), tendo de lutar, em sua própria casa, para não ser sobrepujada, não parece uma brincadeira carregada de ironia? Pois não é.

Imaginem-se os netos do senhor (já ia escrevendo Osama Bin Laden, por semelhança sonora – apenas sonora) Barak Obama estudando em uma dessas escolas: English as a second language. O mundo vive dando voltas, mesmo. Ele não para.