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A invasão branca

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 02/09/2011 11h49, última modificação 02/09/2011 11h49
Os habitantes negros deixam aos poucos o Harlem, tradicional bairro nova-iorquino, agora revitalizado e alvo de especulação imobiliária

O Harlem é um lugar à parte. Existe entre seus moradores um senso comunitário pouco usual para uma cidade como Nova York. Eles se olham nos olhos. Cumprimentam os vizinhos quando se encontram na calçada. Um dos seus rituais preferidos é ficar na rua, durante horas, conversando em voz alta e observando o movimento dos pedestres. Os harlemites conhecem, por isso, detalhes do cotidiano alheio. “A vida no Harlem é pública”, diz a jornalista Sharifa Rhodes-Pitts.

Tratado como a capital mundial dos negros desde o início do século XX, o Harlem experimenta há mais de uma década o fenômeno de seu “enobrecimento”, ou seja, a valorização imobiliária que se seguiu à revitalização da área urbana. A meca cultural e política dos afro-americanos corre o risco de perder seus representantes, incapazes de arcar com o aumento dos aluguéis. A especulação imobiliária nessa região ao norte de Manha-ttan tem provocado o êxodo dos moradores mais antigos. Eles abandonam uma terra certa vez conhecida como paraíso, pois ali seria possível, enfim, gozar a democracia dos Estados Unidos.

Esse tema perpassa Harlem Is Nowhere - A journey to the mecca of black America (Little, Brown and Company, 296 págs., US$ 24,99), o livro de estreia de Sharifa Rhodes-Pitts, de 31 anos. Formada na Harvard University, ela absorveu com atenção a literatura dos afro-americanos responsáveis pela Harlem Renaissance, revolução cultural ocorrida no início do século passado. As transformações da região foram dinamizadas pela Grande Migração (1910-1930), a saída- dos negros dos campos do Sul para as cidades industrializadas do Norte.

Da massa de trabalhadores em busca de melhores oportunidades surgiram os artistas plásticos, os músicos e os escritores negros. Esse evento histórico é analisado em Harlem - The four hundred year- history from dutch village to capital of black America (Grove Press, 528 págs., R$ 29,95), de Jonathan Gill. O volume conta os 400 anos de história dessa área, colonizada inicialmente pelos holandeses (Harlem é uma adaptação de Haarlem, nome de uma cidade no norte da Holanda).*

*Leia a íntegra da matéria na edição 662 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 2