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A idade da convicção

por Orlando Margarido — publicado 03/03/2011 09h23, última modificação 04/03/2011 10h18
A atriz Isabella Rossellini, que presidiu o júri em Berlim, deixa-se levar pelo tempo com elegância e humor. Por Orlando Margarido, de Berlim. Por Orlando Margarido
A idade da convicção

A atriz Isabella Rossellini, que presidiu o júri em Berlim, deixa-se levar pelo tempo com elegância e humor. Por Orlando Margarido, de Berlim. Foto: Berinale

A pergunta sobre qual seria a língua mais adequada para conversar com Isabella Rossellini provoca a primeira risada das muitas que virão, surpreendente para um perfil aristocrático e uma beleza que se mantém digna, mas sem esconder o andar do tempo. “Falo com fluência inglês, italiano e francês, mas nenhuma delas é minha língua primeira, materna. Isto diz muito de mim, de minha vida”, diz, divertindo-se, sem considerar a questão um problema. Porque, perto de completar os 59 anos que não esconde, a atriz e diretora eventual- aprendeu a lidar com conceitos múltiplos de identidade e hoje não se diz mais pressionada em compor a própria. “Eu perdi meu pai ainda na fase dos 20 anos, minha mãe quando entrei nos 30 e foi nesse intervalo que cheguei ao cinema, um pouco tarde. Sempre soube, contudo, que levaria essas legendas comigo.”

Ela se refere, como se sabe, à aristocracia cinematográfica da qual faz parte. A filha do italiano Roberto Rossellini e da sueca Ingrid Bergman nasceu em Roma, mudou-se com os pais para Hollywood por breve período e decidiu se fixar em Nova York, onde mora. “É um bom meio caminho entre Europa e Hollywood, geográfica e mentalmente falando.” Talvez Isabella não se dê conta, precoce por acaso que foi em sua origem plural, mas o mundo globalizado terminou por alcançá-la.

Esse foi um dos temas preferidos nas conversas dela com jornalistas na 61ª edição do Festival de Cinema de Berlim. No sábado 19, ela encerrou mais um de seus papéis, desta vez fora das telas, como presidente do júri. Poucas vezes a Berlinale viu figura tão bem-humorada e generosa ao falar sem rodeios sobre todos os assuntos nesse posto normalmente sisudo. Havia outro bom exemplo de interpretação, mais simbólico do que aquele, na comédia romântica Late Bloomers, da francesa Julie Gavras, outra filha de pai ilustre, o cineasta Costa-Gavras. Isabella é a protagonista, uma mulher perto dos 60 anos que se dá conta dos limites da idade, entre eles não mais atrair o olhar masculino. Casada com um arquiteto (William Hurt) também em crise, ela tem seus filhos criados e netos por perto, mas quer redescobrir o fio de vida que perdeu em razão da família. “Isabella tem o dom de se oferecer com naturalidade ao personagem porque é assim que ela faz na vida. Não há, a rigor, uma representação”, diz Julie Gavras a CartaCapital.

Exibido em seção especial do evento e previsto para estrear em maio no Brasil, o filme tem muito seguramente da própria Isabella, mas pouco a ver com ela no que se relaciona à vaidade e ao avançar do tempo. Ela acredita que o próximo passo na sociedade será as mulheres serem aceitas em todas as posições masculi-nas e os homens ocuparem com naturalidade os postos femininos. Seus mais recentes trabalhos no cinema, como em Amantes, de James Gray, tem sido de matriarcas que orientam com experiência e sabedoria seus familiares, mesmo os homens, o que de certa forma causa espanto aos cultores de sua beleza.

Isabella, enfim, envelheceu e expõe tranquilamente os anos. Ela segue os ditames do tempo e fica feliz quando, entre os dois ou três roteiros que recebe por dia, encontra um bom personagem da sua idade para defender, como a Maria de Late Bloomers. “Mas são tão raros que hoje nem tenho um agente mais me representando”, diz, inabalável com as rugas que surgem. “Não quero ser jovem, ou ser considerada como tal. Quero sempre ser sofisticada, isso sim, aparentar a idade que tenho e não ouvir que pareço mais jovem do que sou”, completou na coletiva de imprensa do filme. E mais uma vez fez rir a plateia. “Nunca gostei de andar por Roma e ver os homens assobiando ou fingindo tropeçar para passar a mão na minha bunda. Isso foi embora com a idade e eu gostei.”

A ex-modelo e rosto por muitos anos oficial da marca de cosméticos Lancôme, posição agora pertencente à filha Eletra Weiderman, não parece blefar quando fala de suas vaidades. Lembra que foi pela decisão de se dedicar a ela e ao filho adotado Roberto que se recusou- a entrar na engrenagem hollywoodiana e preferiu os projetos alternativos de diretores como David Lynch, um de seus ex-companheiros, que a tornou célebre em Veludo Azul e Coração Selvagem. “É um cineasta excêntrico, assim como Guy Maddin, e eu gosto muito de trabalhar com pessoas assim. Lynch não discute verbalmente o que quer de você, mas mostra”, justifica ela. “Eu não entendo os filmes deles e certa vez perguntei por que os fazia tão complicados. A resposta foi: ‘Por acaso você acha a vida simples?’” Como influência artística, ela lembra a parceria com Peter Greenaway. “Ele ama pintura e é muito culto, o que certamente contribuiu para o tipo de filme que queria dirigir.”

Essa vertente alternativa da carreira foi reforçada mais uma vez por sua mistura de identidades. “Eu falo italiano com sotaque e por isso não tenho oportunidades no teatro na Itália. Da mesma forma é meu inglês, e se hoje atrizes como Penélope Cruz conseguem vencer essa barreira da língua nos Estados Unidos, naquele momento em que comecei era ainda muito difícil.” Além disso, Hollywood tem pontos de desacerto em seu passado, como Isabella lembrou num encontro com o público de Berlim, iniciativa tradicional da seção Talent Campus. “A passagem de nossa família por lá foi tumultuada, como a de muitos atores europeus que rumaram para a América fugidos da guerra”, disse. “Éramos muito bem recebidos, mas meu pai nunca aceitou trabalhar com os projetos comerciais que os estúdios queriam. Ele detestava esse tipo de cinema e o único que o apoiava era Charles Chaplin.” A mãe, por sua vez, embora tenha se tornado uma estrela, permaneceu relativamente por pouco tempo em Los Angeles, enquanto os dois foram casados.

Assim como aconteceu em suas aparições na capital alemã, Isabella sempre responderá pela fama dos pais e suas realizações recorrentes, Roma, Cidade Aberta, no caso de Rossellini, e Casablanca, pelo lado materno. “Certa vez ‘mama’ foi convidada para uma visita a Harvard e ficou surpresa quando declamavam a ela diálogos inteiros do filme. São referências que se imortalizaram, como a figura com chapéu, sobretudo e cigarro na boca de Humphrey Bogart.” Mas há também suas memórias pessoais que a levaram a provar outras habilidades na carreira, impulsionada por amigos como Lynch e Maddin, canadense que integrou o mesmo júri da Berlinale e com quem Isabella trabalhou em A Música Mais Triste do Mundo. Com ele na direção, a atriz escreveu e se encarregou de narrar, em 2005, sua visão do pai no curta-metragem documental My Dad Is 100 Years Old. Maddin, que volta a dirigi-la agora numa versão da Odisseia, ainda a estimulou a ir para trás das câmeras. O resultado em 2008 foi Green Porno, em que a atriz se traveste de insetos para dar conta de seu interesse pelo mundo animal. “Me surpreendi como fez sucesso na internet. É um filme ousado e independente, que se pode fazer quando se está livre de obrigações.”

O tema, mais uma vez, tem ligação com suas memórias. “Quando fiz Green Porno, as pessoas diziam que estava realizando um sonho de meu pai.” Isto porque houve um período em que Rossellini estava interessado em realizar filmes científicos. “Mas não documentários, algo na linha do neorrealismo”, ela explica. “Ele chegou a ir para Houston, por causa da Nasa, para estudar e conhecer as novas descobertas na área, mas os projetos não deram certo e ele morreu logo depois.” Nessa época, ela acrescenta, Rossellini lhe deu um livro do especialista em comportamento animal Konrad Lorenz, austríaco que ganhou o Prêmio Nobel. “Foi uma revelação e desde então me tornei muito interessada no assunto.”

As referências a Rossellini são evidentemente mais comuns nas lembranças de Isabella, de terceiro nome Elettra, e ela não nega ter sido uma preferida entre os quatro filhos, sendo um deles sua gêmea, Ingrid. “As pessoas sempre insistiram em querer me aproximar de Ingrid, tanto pela aparência física como pelo perfil artístico”, diz, sempre com graça. “Apenas na adolescência vi alguns momentos de semelhança, quem sabe a nuca.” E continua a rir, talvez na atitude que mais a afaste da sobriedade da mãe.

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