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A idade da convicção

por Orlando Margarido — publicado 24/02/2011 08h35, última modificação 25/02/2011 17h13
A atriz Isabella Rossellini, que presidiu o júri em Berlim, deixa-se levar pelo tempo com elegância e humor

A atriz Isabella Rossellini, que presidiu o júri em Berlim, deixa-se levar pelo tempo com elegância e humor

A pergunta sobre qual seria a língua mais adequada para conversar com Isabella Rossellini provoca a primeira risada das muitas que virão, surpreendente para um perfil aristocrático e uma beleza que se mantém digna, mas sem esconder o andar do tempo. “Falo com fluência inglês, italiano e francês, mas nenhuma delas é minha língua primeira, materna. Isto diz muito de mim, de minha vida”, diz, divertindo-se, sem considerar a questão um problema. Porque, perto de completar os 59 anos que não esconde, a atriz e diretora eventual aprendeu a lidar com conceitos múltiplos de identidade e hoje não se diz mais pressionada em compor a própria. “Eu perdi meu pai ainda na fase dos 20 anos, minha mãe quando entrei nos 30 e foi nesse intervalo que cheguei ao cinema, um pouco tarde. Sempre soube, contudo, que levaria essas legendas comigo.”

Ela se refere, como se sabe, à aristocracia cinematográfica da qual faz parte. A filha do italiano Roberto Rossellini e da sueca Ingrid Bergman nasceu em Roma, mudou-se com os pais para Hollywood por breve período e decidiu se fixar em Nova York, onde mora. “É um bom meio caminho entre Europa e Hollywood, geográfica e mentalmente falando.” Talvez Isabella não se dê conta, precoce por acaso que foi em sua origem plural, mas o mundo globalizado terminou por alcançá-la.

Esse foi um dos temas preferidos nas conversas dela com jornalistas na 61ª edição do Festival de Cinema de Berlim. No sábado 19, ela encerrou mais um de seus papéis, desta vez fora das telas, como presidente do júri. Poucas vezes a Berlinale viu figura tão bem-humorada e generosa ao falar sem rodeios sobre todos os assuntos nesse posto normalmente sisudo. Havia outro bom exemplo de interpretação, mais simbólico do que aquele, na comédia romântica Late Bloomers, da francesa Julie Gavras, outra filha de pai ilustre, o cineasta Costa-Gavras. Isabella é a protagonista, uma mulher perto dos 60 anos que se dá conta dos limites da idade, entre eles não mais atrair o olhar masculino. Casada com um arquiteto (William Hurt) também em crise, ela tem seus filhos criados e netos por perto, mas quer redescobrir o fio de vida que perdeu em razão da família. “Isabella tem o dom de se oferecer com naturalidade ao personagem porque é assim que ela faz na vida. Não há, a rigor, uma representação”, diz Julie Gavras a CartaCapital.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 635, já nas bancas.