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A gênese da obra de Sebastião Salgado

por Rogério Sottili — publicado 04/10/2013 15h29, última modificação 04/10/2013 15h54
O maior fotógrafo vivo da atualidade não se contém em retratar as facetas da vida. Ele age para transformar a realidade. Por Rogério Sottili
Sebastião Salgado
Sebastião Salgado

Sebastião Salgado, talvez o maior fotógrafo vivo da atualidade, não se contém em retratar com brilhantismo único as facetas da vida em nosso planeta. Ele vai além: age para transformar a realidade do mundo

Conheci Sebastião Salgado pessoalmente em 1996. Havia visto o seu trabalho pela primeira vez em 1994, no livro Os Trabalhadores, e me surpreendia ao perceber como ele conseguia fotografar um formigueiro humano nas minas de Carajás deixando entrever, antes de tudo, a condição humana.

Na época em que o conheci, apresentado por um amigo comum, ele precisava de ajuda para fotografar os acampamentos e assentamentos do MST. Fiz a ponte e, dias depois, lá estava Sebastião Salgado registrando a maior ocupação de terra do País, quando 12 mil Sem-Terra entraram na Fazenda Giacometti, uma área improdutiva no Paraná.

Do encontro improvável nasceu uma amizade leal e a admiração irrestrita por esta pessoa que, com quase 70 anos, faz da fotografia seu instrumento de luta, de intervenção política, de denúncia e de garantia dos direitos humanos de comunidades mundo afora. Esta sempre foi sua força motriz durante os projetos Terra, Êxodos e, nos últimos 12 anos, em seu trabalho mais recente, Gênesis, que agora pode ser admirado pela população de São Paulo na exposição em cartaz no Sesc Belenzinho, até o dia 1º de dezembro.

Desde que descobriu, no princípio dos anos 2000, um estudo da ONG Conservation International afirmando que 46% do planeta ainda são territórios inexplorados, Sebastião Salgado aventurou-se em alguns dos lugares mais inóspitos da Terra: vagou entre os pastores de rena da Sibéria; misturou-se em comunidades tribais da Etiópia e aos índios Zo’è, isolados nas profundezas da Amazônia paraense; registrou a biodiversidade de Madagascar e o santuário de Galápagos. Lugares habitados por vidas humanas, animais e paisagens que sofreram pouca ou nenhuma intervenção do nosso modo de vida. Verdadeiras fronteiras vivas do passado, elos perdidos da natureza. Salgado traz para os nossos olhos alguns dos ambientes mais próximos aos encantadores mistérios da gênese de nosso mundo.

A esperança é o fio condutor da fotografia de Sebastião Salgado, unindo e dando coesão a toda sua obra, mesmo diante das mais absurdas condições humanas.

No processo de Gênesis não é diferente.

Salgado novamente nos oferece sua experiência pessoal e a esperança renovada sob a forma de um planeta ainda intocado, puro e soberano. Mas, para além do que registra suas lentes, por onde Sebastião Salgado passa ele deixa sua marca, sua intervenção transformadora estética e também política.

Em Gênesis, por exemplo, após vários dias na comunidade indígena dos Zo’é fotografando uma gente que resiste à intervenção da cultura predominante, Salgado percebeu existirem graves violações de direitos humanos. Imediatamente, alertou sobre os riscos que corria aquele grupo de índios; denunciou uma empresa britânica, exploradora de minérios, que poluía os rios da reserva; e insistiu com sua rede de contatos sobre a necessidade de reconhecimento das terras dos Zo’é.

Como resultado do ativismo social de Sebastião Salgado, no dia 21 de dezembro daquele mesmo ano de 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que homologou a demarcação administrativa da Terra Indígena Zo’é, localizada no município de Óbidos, no estado do Pará. Atualmente, Salgado faz semelhante luta em prol da comunidade indígena Awá, no Maranhão, ameaçada pela ação de madeireiros e grileiros.

Sebastião Salgado, talvez o maior fotógrafo vivo de na atualidade, não se contém em retratar com brilhantismo único as facetas da vida em nosso planeta. Ele vai além: age para transformar a realidade do mundo. Uma emocionante lição de humanismo. A verdadeira gênese de sua vida e obra.

 

*Rogério Sottili, mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é secretário de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo