Você está aqui: Página Inicial / Cultura / A dor que não sai no jornal

Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

A dor que não sai no jornal

por Matheus Pichonelli publicado 05/12/2014 14h01, última modificação 05/12/2014 16h31
Em 'O Ciúme', Philippe Garrel fala do fim dos relacionamentos sem apelar ao melodrama - o que explica o desconforto de quem se acostumou a desfechos felizes
O Ciúme

Cena do filme O Ciúme, de Philippe Garrel

Pelo Twitter, recebo de um amigo a notícia de que, no bairro vizinho ao meu, uma mulher de 30 anos ateou fogo, ontem à noite, na casa do namorado, um vigilante três anos mais jovem. Pouco antes, ela tentara passar com o carro sobre a moto do rapaz. Aí a notícia carece de exatidão – mas até o fechamento deste parágrafo, não havia mortos ou feridos.

Com o título “Ciumenta põe fogo na casa do namorado”, a notícia me lembrou que, dias atrás, havia assistido ao filme O Ciúme de Philippe Garrel. Na sessão, quem esperava algo arrebatador, à la novela das oito, se decepcionou. No filme, diferentemente dos meus vizinhos, ninguém arma o barraco nem toca fogo em nada na história – embora um dos capítulos tenha como título “Faíscas num barril de pólvora”. Pura provocação: observado à primeira vista, o filme, em preto e branco, soa frio e fatalista. Os personagens são contidos até para chorar. Não vemos escândalo, berro ou ameaças. Vemos apenas portas. Muitas. Não por acaso.

Inspirado na história dos pais do diretor, e interpretado por seu filho, Louis Garrel, o filme tem um roteiro enxuto. Pelo olhar da filha, alter ego do cineasta, sabemos que Louis, o pai, está decidido a sair de casa sem choro ou lamento para morar com outra mulher. Contrariada, a mãe é flagrada aos prantos, mas logo volta a tocar a vida naturalmente. O pai se muda, então, para um apartamento apertado com Claudia, uma atriz de interesses vários, como a paixão por Maiakovski, mas que, diferentemente dele, não consegue emplacar um papel no teatro.

Conscientemente, imaginamos um roteiro previsível: o marido troca a esposa segura por uma mulher mais jovem, mais vulnerável e mais dependente. O que o atrai nela seria a assimetria das relações, certo? Novamente, errado. Nas cenas seguintes, o que se vê é um esforço mútuo para equilibrar a vida a partir daquele apartamento – inclusive quando o pai traz a filha, de dez anos, para dentro da relação, num dos momentos mais ternos da obra: o ciúme duplo parecia desmontado pela empatia. A clausura, porém, indicava onde era guardado o barril.

No filme, a fogueira começa a queimar em fogo brando. Os personagens são flagrados roendo as unhas, com andares ofegantes, passos acelerados, olhares desconfiados, mesmo quando falam sobre liberdades. A certa altura, Louis pergunta a Claudia o que fariam se fossem infiéis. Contariam um ao outro? Ele dá a entender que sim; ela corta o assunto. A infidelidade, naquele quarto, é a menor das preocupações. O medo maior, diz a câmera que abre e fecha portas como se circulasse por um mesmo cômodo, é o desencontro, o descarte. É a impossibilidade do retorno. Por ironia, todos no filme parecem temer justamente aquilo que são ou foram capazes de fazer um dia. “Eu sei o que eu sou há algum tempo. É uma sorte, mas também um sofrimento”, diz Louis em uma das cenas. Para sua sorte ou azar, Claudia também sabia.

O risco do abandono torna-se, assim, o risco de um dia ser abandonado. Era assim no tempo dos nossos avós. É assim nos dias de hoje. Lá como cá, mostra o diretor, estar junto, ao menos para aquela família, era uma questão de vontade, não de conveniência. É um caminho natural. As pessoas se conhecem, se encantam, se desencantam, e se desencontram, dentro ou fora da vida a dois. Por isso a história pode ser transportada para os dias atuais com as cores de um passado nem tão distante.

Philippe Garrel fala dessa travessia sem qualquer truque melodramático, o que talvez explique o desconforto de um casal sentado bem atrás de mim na sessão. Eles bufavam, urravam e questionavam o que faziam ali a cada cena de silêncio ou frase sem sentido aparente. Talvez estivessem acostumados demais às tintas carregadas das telenovelas. Elas nos fazem esperar intensidade onde só há incompletude, sorte onde há também sofrimento, e finais felizes onde os recursos são finitos. A dor dos personagens de O Ciúme, em contrapartida, é a dor do quarto sufocante. A dor que não sai no jornal. A dor da impossibilidade da plenitude. Diante da contrariedade, uns deixam a sessão. Outros incendeiam casas.