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Cultura

Crônica do Menalton

A culpa não é minha

por Menalton Braff publicado 02/12/2013 11h37
Liberdade todos nós queremos, mas ela não existe sem responsabilidade. Nos julgamos livres, muitas vezes, mas nada mais somos que presa fácil do hedonismo
Daquella manera/Flickr
Culpa

Como pensar em liberdade se por princípio anulamos a culpa?

Perguntei ao Adamastor por que fora tão curta sua carreira de estudante. Depois de abandonar sua profissão de gigante, não procurou ilustrar-se um pouquinho mais. Ele sisudo, contou os dedos das mãos, conferindo, antes de responder. A coisa lá em casa não andava bem, e meu pai me exigiu que fosse trabalhar. Insisti, perguntando se não podia ter acompanhado um curso noturno. Primeiro foi o cansaço do trabalho, ele respondeu, depois, você sabe, namoro, casamento, compromisso com esposa, filhos, essas coisas todas, compreende?

Compreendi. Tanto compreendi que me lembrei do Jean-Paul Sartre. Liberdade, para o filósofo, implica responsabilidade. Começamos, segundo Sartre, botando tudo nas mãos de Deus e isentando-nos de qualquer culpa. Foi Deus que quis assim. Ah, se aconteceu é porque tinha de acontecer. É o destino, o que a gente vai fazer? Saímos incólumes de tudo que deixamos de fazer e ainda debitamos a culpa ao Criador. Mas como pensar em liberdade se por princípio anulamos a culpa?

Bem, depois vem o pai, que nunca nos entende, a namorada ou a esposa, o governo, as autoridades de todos os níveis, sem excluir as municipais. E esse capítulo é extenso. Há um buraco na minha rua e xinga-se o presidente da república; a inflação aumenta e questionamos a competência do prefeito municipal. Todos eles são culpados de tudo, até dos casos de frustração amorosa. Sem todos eles (pai, namorada, esposa, autoridades de todos os níveis) sem eles o mundo seria muito melhor. Realizaríamos grandes feitos, seríamos pessoas felizes, não teríamos fraqueza alguma.

Você, caro leitor, já ouviu de algum motorista a confissão de que foi culpado por aquele acidente? Se ouviu, guarde bem na memória para contar pelo resto da vida que encontrou um motorista falando a verdade.

Dos tempos de magistério, guardo algumas conclusões: se o aluno vai bem, para a família ele é inteligente; se vai mal, o professor é um incompetente. Sem apelação.

Liberdade todos nós queremos, mas ela não existe sem responsabilidade. Nos julgamos livres, muitas vezes, mas nada mais somos que presa fácil do hedonismo.

Meu olhar de piedade espantou o Adamastor, que me perguntou curioso o que eu estava pensando. Alguma vez você se sentiu culpado? perguntei como resposta. Ele olhou para o infinito sem entender minha pergunta.