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A blindagem do cangaceiro

por Celso Calheiros, de Recife — publicado 20/10/2010 16h08, última modificação 20/10/2010 16h08
Historiador liga a estética sertaneja às crenças sobrenaturais

Historiador liga a estética sertaneja às crenças sobrenaturais

O cangaço está nas telas de nossos maiores artistas, rendeu filmes premiados, personagem de livros clássicos e se mantém fonte de estudo e paixão. A riqueza do fenômeno parece sem fim. O historiador Frederico Pernambucano de Mello prova isso ao esquadrinhar um aspecto original do fenômeno. Em Estrelas de Couro – A estética do cangaço (Escrituras, 258 págs., R$ 150), apresenta uma abordagem do visual do cangaceiro, adornado e caracterizado com detalhes capazes de ombreá-lo a um cavaleiro medieval europeu ou a um guerreiro samurai.

As páginas com mais de 300 imagens, entre fotos e ilustrações, apoiam textos que analisam com lentes de estudioso os desenhos, enfeites, utilização de peças e hábitos dos cangaceiros. Mello debruçou-se por 25 anos sobre o cangaço e oferece ideias bem estruturadas sobre a razão das moedas de prata e ouro pregadas no chapéu, desenho costurado na roupa e outras minúcias. O autor já escreveu Guerreiro do Sol, com prefácio de Gilberto Freyre, e Quem Foi Lampião, sobre o mais aclamado dos cangaceiros. Em Estrelas de Couro, ele diz tratar de um tema à vista de todos. Ariano Suassuna afirma no prefácio que, fosse ele um cientista e não um artista, não seria outro, senão este Estrelas de Couro, o livro que “gostaria de ter escrito”. Não é elogio pequeno em se tratando do autor de o Auto da Compadecida, outra história com cangaceiro como personagem.

O cangaço resiste no imaginário brasileiro. O movimento foi derrotado pelas armas, proibido pelas autoridades e sobrevive como místico. O apoio a essa construção tem uma base estética rica. “Os cangaceiros criaram uma subcultura do pastoril nordestino, com elementos característicos e fortes”, conta Mello. O chapéu de couro ornado, as chinchas de apoio, as cartucheiras enfeitadas, os bornais com florais, p-unhais prateados com cabos trabalhados e alpercatas fazem desse homem da Caatinga um personagem destacado pela alegoria ante suas ações violentas. Nas palavras do então jornalista Graciliano Ramos, mostravam-se “bem montados, espalhafatosos, pimpões, chapéus de couro enfeitados de argolas e moedas, cartucheiras enormes, alpercatas que eram uma complicação de correias, ilhoses e fivelas, rifles em bandoleira, lixados, azeitados, alumiando”, conforme registra o Jornal de Alagoas de 27 de maio de 1933, quando o bando de Lampião cercou Palmeira dos Índios.

As roupas, acessórios, calçados e armas dos cangaceiros não tinham função única. Sob a análise do historiador, esse personagem surge supersticioso. Presas a seu corpo, ele levava diferentes orações com a função de protegê-lo. Objetivo semelhante tinham os símbolos com os quais enfeitava o chapéu, como o signo de salomão, que reunia a ideia de poder, de proteção, de devolver as ofensas.

A roupa cheia de metais, espelhos e multicores não era um traje de camuflagem, muito ao contrário. Essa característica do cangaceiro, analisa o autor, mostra o caráter arcaico do homem ligado ao sobrenatural, às coisas da vida e da morte. É um traço presente em outras manifestações de arte popular ligadas à divindade. “Os ex-votos, por exemplo, são peças que servem de pagamento à graça alcançada. A carranca do Rio São Francisco, vendida em sacos de estopa para que o dono da embarcação não a visse, serve como um abre caminhos, um protetor contra os malefícios que poderiam estar a cada dobra do rio”, explica o historiador.

“Para esses guerreiros, os elementos exacerbam sua condição de cangaceiro”, crê. “Eles ignoram a ocultação, não negam sua identidade. Com esses adereços, os cangaceiros criavam uma blindagem mística.” Mello vê na exibição desses acessórios um traço de nobreza do grupo. No Sertão do Pajeú e no Riacho do Navio, os integrantes do grupo eram nobres de outra maneira. “O cangaceiro informava ao dono da fazenda o dia, mês e hora do ataque que lideraria.”

A roupa adotada pelo bando foi adaptada do vaqueiro sertanejo. Era adequada ao ambiente, ao calor do dia e ao frio da noite. “A alpercata de rabicho protegia o pé de espinhos e, aberta na frente, evitava o calor do chão no Semiárido.” Muitos guerreiros usavam meias grossas como forma de evitar o frio.

Adequado ao cenário e capaz de atrair tantos olhares de admiração, esse traje fez escola e ganhou seguidores. As forças policiais volantes, que nasceram e viveram com a missão de sufocar esses grupos criminosos, foram as primeiras a adotar o chapéu de abas viradas, que possibilitava a visão de uma possível emboscada, chinchas, cartucheiras, cintos, alpercatas e perneiras. Elementos específicos, como o chapéu de abas viradas e a roupa com proteções de couro, foram incorporadas ao uniforme dos soldados do Exército Brasileiro, baseados no 72º Batalhão de Infantaria Motorizado, em Petrolina, a 730 quilômetros do Recife. Na opinião de Mello, a lição deixada pelos guerreiros do sol foi aproveitada de forma tímida pelas nossas forças terrestres.

O historiador teve acesso a informações detalhadas pelo padre Artur Passos, pároco de Porto da Folha, em Sergipe. Por ser idoso e religioso, recebeu passe livre entre o grupo de Lampião em um cerco a Poço Redondo, em 1929. O padre anotou informações sobre a facilidade com que os cangaceiros se movimentavam, todos com o jogo de bornais. Em média, um cangaceiro carregava 30 quilos, distribuídos de forma equilibrada pelos lados. O soldado brasileiro, detalha o autor, utiliza, pelo contrário, mochilas que concentram o peso nas costas e deslocam o ponto de equilíbrio. “Eu poderia explicar aos nossos militares, como consultor técnico, a inteligência que existia na vestimenta do cangaceiro e em seu modo de distribuir cartucheiras, munição, cantil e armas com equilíbrio.”

Essas informações são apresentadas em ilustrações feitas pelo arquiteto Antônio Montenegro. Oferecem, por etapas, um passo a passo da forma como os cangaceiros se vestiam. As ordens eram estabelecidas na vestimenta da mescla azul, da túnica coberta em xis, bornais e cartucheiras de ombro. As peças, todas enfeitadas, nenhum adorno repetido, são fotografadas no livro.

Depois de Estrelas de Couro, o autor prevê uma biografia do aventureiro Benjamim Abraão, responsável pelo filme no qual documenta, em 1936, Lampião, Maria Bonita e seu bando, todos posados para a câmera, no meio da Caatinga. Outro livro histórico de Frederico Pernambucano vai apresentar todos os detalhes da morte de Lampião, quando seu grupo foi cercado por forças volantes em julho de 1938, em Angicos, Sergipe.

O resultado desse confronto, os cangaceiros degolados registrados em fotografia, é importante na atração de Frederico Pernambucano ao estudo da estética do cangaço. Em seu livro Quem Foi Lampião, pede, na legenda da foto ao final do trabalho, atenção para a riqueza dos elementos da imagem. O enquadramento das cabeças cortadas apoiadas nos degraus da prefeitura de Piranhas, Alagoas, emolduradas pelos bornais, chapéus, espingardas e fuzis com bandoleiras, punhais e cartucheiras, e até máquinas de costura, provocaram a cabeça do historiador. O resultado é o livro.

O trabalho procura dar uma luz científica a personagens tratados com todas as liberdades artísticas e, até então, retratados diferentes do que foram de acordo com registros documentais, testemunhais, históricos. Mello gosta de explicar que o cinema ainda não apresentou Lampião como o líder cangaceiro que era. “Lampião era alto, algo como 1,80 metro, falava baixo, calmo e de forma bem educada”, detalha o historiador. Nada parecido com os personagens que até então foram construídos nos filmes. Lampião, outro traço comprovado no livro, gostava de costurar e tanto cosia em tecido como em couro, com sua máquina Singer, de mesa. “Acredito que a atividade, em um homem que impunha mando pelo terror, tinha função de higiene mental”, analisa o autor.