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Refogado

À beira da estrada?

por Marcio Alemão publicado 05/03/2011 12h52, última modificação 05/03/2011 12h52
Está na hora de parar, sentar e degustar uma boa laranja, a fruta que, infelizmente, virou suco

Está na hora de parar, sentar e degustar uma boa laranja, a fruta que, infelizmente, virou suco

Pois, na minha opinião, a laranja de feijoada deveria ser, sempre, a laranja-da-baía. Tem de ter essa personalidade. Lima, nem pensar. Para não sair do tema, colocar lima na feijoada é tirar o John Coltrane e colocar o Kenny G.
Mas, atenção, longe de mim querer comparar uma lima com o Kenny. Nenhuma lima deste mundo merece isso. Eu me refiro à composição, ao conjunto.
Laranja-lima sempre representou um desafio para mim. Tínhamos um sítio e nesse sítio ainda era possível comer fruta de pé franco. Pé franco é aquele que não recebeu enxerto de nenhuma espécie. Sim, leitores amigos e leitoras amigas, o Júnior também atua com determinação e criatividade em outras áreas. Deu de cruzar sementes que geraram coisas extravagantes. Nenhuma aberração, é fato (eu, pelo menos, não tive conhecimento), mas passou a ficar difícil comer uma singela laranja de pé franco. Mexerica, então, nem pensar.
Por conta do tal  sítio, que tudo dava em abundância, na época das laranjas elas nos chegavam às caixas. Todo domingo meu avô abria o porta-malas de sua Rural Willys e nós as colhíamos. Isso tem muitos anos. Era o tempo em que a música do Ataulfo Alves, Laranja Madura, fazia sentido. Hoje, quem consegue imaginar laranja madura na beira da estrada?
Chegava a hora do jantar. Todos à mesa. Depois da indefectível sopa de mandioquinha, que marcas profundas deixou em minha vida, e depois de um trivial variado, uma tigela grande com as tais laranjas. E assim começava o espetáculo: ver meu pai descascar as laranjas. O lado bacana era sentir aquela clássica admiração. Poder chegar na escola, encher o peito e dizer com um baita orgulho: meu pai é o maior descascador de laranja do mundo. Sinto não tê-lo feito. Imagino que não encontraria rival para réplica.
O lado ruim: minha mãe chegava a insinuar que talvez eu tivesse problemas de coordenação motora. Enquanto meu pai descascava e comia uma meia dúzia, eu mal chegava até a segunda. Sério mesmo, era bonito de ver. Imagine que só depois de muitos anos é que fui relacionar essa habilidade com a profissão dele, que era a de cirurgião dentista.
A lima, a gente  dividia ao meio e deixava a casca grossa, para afundar os dentes na metade. Operação ruidosa, essa. Cavar com os dentes e sugar. E quando a laranja é boa, que espetáculo! Pouco se fala dessa fruta que virou suco. Mas eu sugiro que você vá atrás de uma boa lima e a chupe com atenção. Digo: é uma das mais delicadas que conheço.
Sua irmã, a baía, já se mostra mais geniosa. E, da mesma forma, vale a recomendação para dar uma parada, sentar e degustar uma boa laranja-da-baía.
Também aprendi com meu pai que essa a gente come aos gomos. A barulheira é menor, mas a sujeira é maior. E é aos gomos e sem pele que ela deveria chegar à feijoada. Mas é fato que nem sempre está à disposição no mercado. Por esse motivo, acredito, a laranja-pera domina a cena. E essa que me desculpe se lhe poupo elogios, mas é a laranja do suco e só.
Faltou falar da mais exótica delas, a lima-da-pérsia, que também se come aos gomos e era talvez a favorita de meu pai. Eu, claro, demorei para apreciá-la. A lima-da-pérsia é amarguinha.
Tente fazer isso uma hora dessas. Coloque umas boas laranjas em sua geladeira e chupe-as com atenção. É uma grande fruta que, repito, infelizmente, virou suco.