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A arte do fato

por Rosane Pavam publicado 08/10/2010 16h31, última modificação 08/10/2010 16h31
O jornalismo literário, como o viram os outsiders americanos

O jornalismo literário, como o viram os outsiders americanos

Este é um livro adequado a tempos nos quais a ética jornalística vem sendo saboreada de maneira algo cômica pelo leitor. Malgrado seu título, A Turma Que Não Escrevia Direito discute não uma questão de estilo, mas a função do profissional de imprensa americano diante dos acontecimentos, no decorrer do século que passou. Não custa considerar como referencial a experiência longínqua desses jornalistas e saborear suas lições.

Para Marc Weingarten, também autor de Quem Tem Medo de Tom Wolfe?, o que fez o repórter americano crescer diante do leitor em um período de cem anos não foi a porção literária a pingar de suas linhas, mas a opção, por vezes embriagada, em reportar o lado escuro do país, escondido nas ruas e nos becos. Escrever bem, para um profissional de imprensa, deveria ser lei, sugere o estudo, mas também compromisso.

Eis por que chamar o “novo jornalismo” de “literário” talvez não baste. Naquele gênero, importava menos “escrever direito” do que ampliar a percepção social do fato ao leitor. Os pioneiros desta abordagem, cita o livro, são os jornalistas-escritores Jack London, George Orwell e Charles Dickens, à sua época ávidos por esmiuçar o universo dos despossuídos, ver o mundo segundo seu ambiente, respirando como eles, interpretando-lhes a razão, como os grandes ficcionistas.

Por descrever a ética dos desajustados, o novo jornalismo americano, assim denominado pelo mesmo Wolfe que hoje veste a caricatura do dândi, e praticado no formato gonzo por Hunter S. Thompson, não almejava a parnasiana beleza, cara aos observadores identificados com seus patrões, nem a objetividade, mito que sobrevive nas mentes e afetos das redações.

No livro, os outsiders da imprensa americana entrelaçam-se como em uma rede. Todos, de alguma forma, renderam-se ao rigor de editores sisudos e competentes como William Shawn, que na revista New Yorker ofereceu ao jornalista John Hursey, por exemplo, a possibilidade de tornar nítida a tragédia humana da bomba nuclear pelo lado japonês, em Hiroshima. Curioso saber que o mesmo Shawn arrependeu-se até o fim da vida por ter publicado o Truman Capote de A Sangue Frio, a seu ver fantasioso. O livro enumera incríveis casos, como o perfil aleatório que tornou John Kennedy um herói americano, ou a estupendo sistema de verificação de fatos, estrela da revista Esquire.

A TURMA QUE NÃO ESCREVIA DIREITO

Marc Weingarten

Record, 392 págs., R$ 54,90