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50 anos de um clássico

por Camila Alam — publicado 18/06/2010 18h04, última modificação 10/08/2010 18h09
Psicose, maior sucesso do diretor Alfred Hitchcock

Em 16 de junho de 1960, estreava nos cinemas americanos o thriller Psicose, maior sucesso de público do diretor inglês, naturalizado americano, Alfred Hitchcock (1899 – 1980). Assistir a este suspense na semana em que comemora 50 anos talvez seja pouco diferente da experiência à época de sua estreia. Muito se deve ao fato de que este meio século só tenha colaborado para manter a essência do longa, apesar das mudanças sofridas pela indústria cinematográfica desde então. Psicose é, em suma, atemporal.

Naquela época, as sessões aconteciam de maneira contínua. Era comum entrar e sair dos cinemas a qualquer horário. Em cada sala de exibição, contudo, o diretor pediu que fossem distribuídos cartazes, onde pedia ao público que entrasse na sala apenas no começo da sessão. Como todo bom filme de suspense, este teria uma surpresa ao final, que definitivamente não deveria ser estragada. O anúncio do diretor seria importante para atiçar a audiência, atraindo ainda mais espectadores e gerando maior curiosidade acerca da trama do Motel Bates e os envolventes personagens de Anthony Perkins (1932-1992) e Janet Leight (1927-2004).

Assim como a maioria dos filmes de Hitchcock, este é cercado de curiosidades de bastidores. A marcante cena do assassinato no chuveiro, uma das mais famosas da história do cinema, também é vítima de mitologias. Fato é que Hitchcock era de poucos amigos e tratava seus atores, em especial as atrizes, com desprezo incomum. Parte dessa trajetória curiosa que envolve as mulheres é tratada pelo pesquisador Donald Spoto em Fascinado pela Beleza (Ed. Larousse, 2009). Spoto, também autor de outros livros sobre o diretor, discorre neste volume sobre o tratamento hostil dedicado às atrizes e mulheres que passaram pela vida do inglês, incluindo esposa e filha. Algumas atrizes, que cruzaram com o mestre do suspense ainda em início de carreira, no cinema mudo, teriam desistido de atuar depois de conviver com o diretor. Histórias curiosas são narradas e demonstram uma relação ambígua que envolvia o diretor e suas musas.

Os boatos que cercam Janet Leigh, a Marion Crane assassinada no chuveiro em Psicose, não passam, no entanto, de boatos. Dizia-se à época que o diretor teria enganado a atriz e usado água gelada no chuveiro, para atenuar a expressão de espanto. A ação foi desmentida pela atriz, que ficou um tanto ofendida pelo boato que coloca em xeque seu talento para atuar. Só não negou, porém, outro boato. O de que nunca mais teria conseguido tomar banho de chuveiro depois das filmagens. “Eu nunca tinha imaginado o quanto ficamos vulneráveis quando estamos no chuveiro”, disse certa vez. Apesar de ter trabalhado com outros grandes diretores, como Orson Welles, foi o papel de Marion Crane que mais marcou sua carreira. Assim como Anthony Perkins seria para sempre marcado por Norman Bates.

O público de hoje é mais esperto, acostumado a truques cinematográficos, investigações policiais e roteiros com turning-points mirabolantes. Tornou-se, ao longo do tempo, mais exigente. Muito porque este clássico abriu portas e inspirou como nenhum outro até então. Já assistimos a centenas de outros assassinatos que envolvem serial killers, autores de mentes perturbadas. Não há vilão mais gentil que Bates. Assistir a Psicose hoje é tão ou mais válido por sua eficácia ter sido mantida inalterada, capaz de surpreender a audiência e fazê-la segurar os braços da cadeira, sufocada por acordes estridentes de violinos alucinantes.