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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

“Os livros e as viagens são os únicos tesouros que ninguém pode roubar”

por Matheus Pichonelli publicado 18/07/2015 06h58, última modificação 22/07/2015 21h13
Foi o que meu amigo aprendeu com a mãe muitos anos antes de cruzar a África de bicicleta e escrever um belo livro sobre a travessia
Bicicleta

Alexandre Costa, autor de "Mais que um leão por dia", tenta atravessar uma tempestade de areia no deserto

“Você precisa conhecer o Colcci”. Deve ter sido a frase que mais repeti durante os quatro anos de faculdade. Não era por acaso. Colcci era o apelido do meu amigo Alexandre Costa Nascimento, cujos pais eram donos de uma loja da grife homônima em nossa cidade, Araraquara.

Desde muito cedo, talvez entre os 13 e os 14 anos, sabia que na cadeira ao lado, num grupo que um professor de matemática apelidou de "Nata Podre" da sala - nós, os bagunceiros que, ele jurava, jamais chegariam a lugar algum - estava um amigo para toda a vida. Eu já era doido por futebol e ele, por Fórmula 1, e usávamos nossas carteiras de fórmica para desenhar e montar previsões para a escalação ou o grid de largada do fim de semana.

Anos depois, começamos a estudar jornalismo, e sempre citava suas ideias, compartilhadas por e-mail ou nas crônicas e artigos impressos trazidos na bagagem, aos novos colegas de classe. “Você precisa conhecer o cara”. Era uma forma de me conformar com algo que, no fundo, jamais me conformei: desde 1999, quando estávamos no meio do colegial, ele morava em Curitiba. Nosso contato, desde então, eram as visitas a nossa cidade-natal e a São Paulo, para onde me mudei em 2002. Nas boas e não raras viagens até a capital paulista, ele muitas vezes ficava em casa, e praticamente se tornou um integrante da turma paulistana.

Também na mesma época, começamos a trabalhar em jornal diário, e perdi as contas de quantas vezes abri a Gazeta do Povo numa banca de jornal para conferir as manchetes. Sabia quando a reportagem principal tinha a assinatura dele – como quando ele calculou a distância entre “países” de IDH distintos separados em poucos quilômetros pela região metropolitana de Curitiba.

Quando nos reencontrávamos, retomávamos nossas ideias como quem havia se falado todos os dias desde sempre. Era como tirar o pause de uma longa fita K7 (somos desse tempo).

Na escola, na faculdade e na vida adulta, o Colcci era, e ainda é, o amigo das ideias fixas. Uma vez encucou que a capital paranaense era ligada por túneis subterrâneos construídos pela comunidade alemã que, acuada por Getúlio Vargas, temia ser bombardeada durante a Segunda Guerra. Ele pesquisou e cavou fundo, literalmente, para levantar a história. Antes mesmo da faculdade ele já havia encucado de estudar a história da maçonaria e do Subcomandante Marcos, de quem eu jamais tinha ouvido falar até então. Foi o Colcci quem me apresentou também a autores como Marcelo Rubens Paiva e Gabriel Garcia Marquez.

Uma dia ele comprou uma bicicleta e começou a pedalar. No dia seguinte, pedalou um pouco mais. No outro, ainda mais. A cada nova quilometragem ele percebia que pedalar nunca seria só diversão ou deslocamento. Era também ação política. Luta por espaço. Por um direito. Certa vez por pouco não foi atropelado; o motorista do automóvel o derrubou e provocou estragos na bicicleta. Ao chegar em casa, ele lançou as palavras “atropelei” + “ciclista” no Twitter e bingo: o agressor correra às redes para se gabar do feito. Flagrado e “printado”, o autor da barbeiragem teve de pagar os reparos e pedir desculpas, com medo de sofrer um processo.

Com o Colcci é assim: quando encuca, vai até o fim. Em 2012, já conhecido como jornalista e militante do blog Ir e Vir de Bike, ele botou na cabeça que atravessaria a África pedalando com outros 50 ciclistas de várias nacionalidades no chamado Tour d’Afrique do ano seguinte. Até então, nenhum brasileiro havia tentado a travessia (saiba mais AQUI).

Como sempre, ouvi e apoiei – como se ele tivesse me falado que iria buscar pão e já voltava. Não sei se por descaso de quem já começa a olhar a vida atrás dos próprios muros ou se por saber, de antemão, que se ele havia botado a ideia na cabeça ele iria até o fim – e, pelo menos para nós, que já o conhecíamos, não havia nada de novo naquela busca dele por novidades – passei os meses seguintes sem jamais me dar conta do que era atravessar um continente inteiro de bicicleta.

Talvez inconscientemente imaginasse que andar de norte a sul da África fosse simplesmente deslizar de cima pra baixo, pela força gravitacional, como numa ladeira – sem jamais imaginar o esforço humano e a profusão de encontros que essa “descida” embutia.

Um dia recebo em mãos o livro “Mais que um leão por dia – A saga do primeiro brasileiro a pedalar 12 mil quilômetros pela África”. O autor: Alexandre Costa Nascimento. O Colcci. “Obrigado por fazer parte dessa história”, ele me escreveu, como se estendesse as mãos para que eu pulasse na garupa.

De saída, eu, que testemunhei de perto a sua maior dor, me fixo na dedicatória que serviria como linha-mestra de toda a narrativa: “À minha mãe, Sônia Beatriz, que me deixou como herança o ensinamento de que as viagens que realizamos e os livros que lemos são os únicos tesouros que não perdem valor com o tempo e que ninguém, jamais, poderá nos roubar”.

Quando abri o livro, não imaginava que começaria, eu também, a pedalar por um continente desconhecido. O que vi, ali, não foram as impressões ou um diário de bordo de alguém já conhecido e que, por ser tão próximo, já não poderia me surpreender. O que encontrei foi um trabalho de descrição e pesquisa - social, política, econômica e geográfica - dignas das grandes reportagens - o que na faculdade chamávamos de jornalismo literário. O Colcci já era repórter desde que desenhava ao meu lado na carteira e, ainda que tivesse lido, até então, muito da sua produção, eu ainda não sabia o quanto ele era capaz de transformar vivência em paixão, e paixão em histórias.  

Não eram quaisquer histórias, mas a história que começa nas pirâmides do Egito, nos hábitos culturais e religiosos do Cairo, passa pela Praça Tahir, pelo Saara e segue rumo. “Na rotina, nada é sempre igual”, escreve.

Conheci de perto, assim, a paranoia militar de uma ditadura de orientação islâmica do Sudão, onde a mutilação genital é recorrente e a hospitalidade, por incrível que pareça, é marcante. Lá, acompanhei o esforço dele para omitir a profissão de jornalista para não correr riscos ao tirar fotos ou se aventurar num garimpo do país.

Atravessei uma ponte de 50 metros sobre um riacho e descobri que é possível encontrar, do outro lado da fronteira, na Etiópia, um mundo de nacionalidade, língua, governos, religiões e costumes completamente diferentes. Conheci Bahir Dar, cidade considerada a Amsterdã da África; passei às pressas pelo Quênia em um momento de tensão pré-eleitoral e risco iminente de conflito; degustei o melhor café do mundo – em um dos capítulos, ele consegue explicar o rombo da balança comercial e parte da situação de miséria do país a partir da história do café e da chegada dos solúveis amargos e importados aos lares quenianos.

Passei pelo Malauí, país de impressionantes 406 bicicletas pra cada mil habitantes, e conhecei o drama dos albinos, marginalizados e caçados, literalmente, por quem acredita que as partes mutiladas de seus corpos são sinais de sorte.

Conheci os estragos da corrupção na economia da Zâmbia e atravessei a menor fronteira do mundo até a Naníbia, a caçula das nações africanas. Visitei por ali cachoeiras, cataratas, vales até finalmente chegar à Cidade do Cabo, na África do Sul, e reconhecer as cicatrizes do apertheid, regime do qual ouvíamos falar na aula de geografia da professora Cláudia. Ao todo foram 11 países, 530 horas sobre a bike, 11.667 quilômetros, 121 dias de expedição e uma série de perrengues no caminho: indisposição gástrica com as iguarias mais exóticas, sede, cansaço, lama, vento, banheiro a céu aberto, tempestade de areia, mosquitos, câmaras e pneus furados, tombos, perdas de equipamento, perda de peso (10 kg, ao todo), desidratação, diarreia, inflamação no tendão, herpes, resfriado, gripe, mordida de filhote de pastor, infecção na pele, corte no pé, picadas, pedradas, pauladas, bosta de burro disparadas por crianças nas ruas, e claro, animais de todas as espécies cruzando a estrada. Não fazia ideia do que era pedalar mais de 150 quilômetros num mesmo dia e o quanto cabia de dor, esforço, solidariedade e superação de uma ponta a outra. Agora sei.

E só soube de tudo porque, diferentemente dos ciclistas competidores, premiados ao fim de cada etapa, o autor foi até a África justamente para perder tempo à beira da estrada, apreciar os passeios, babar na paisagem, anotar e jogar conversa fora com os grandes novos amigos – uma rede de camaradagem formada por ciclistas italianos, holandeses e até um americano fã do Tea Party, cada um com uma forma distinta de ver e encarar a maratona e o mundo (muitos deles são perfilados ao fim de cada capítulo), assim como os personagens encontrados no caminho, como um ciclista amador que pedalava com uma perna só e os garotos que faziam fila para jogarem bola ao verem sua camisa do Brasil. De alguma forma, fiquei amigo deles também.

Ao fim da leitura, percebi que não tinha ideia do que eram os países da África até então. Mais que isso, descobri o quanto eu ainda precisava conhecer e ainda não conhecia o meu amigo. Ao menos com o livro posso agora dizer aos leitores, e não apenas aos amigos de faculdade: vocês precisam conhecer o Colcci. Todos precisamos. Pois ele tem razão quando diz que as viagens e os livros são os únicos tesouros que ninguém nos tira. Os amigos das páginas e das estradas também.

 

PS: Até as últimas páginas, não sabia se o meu amigo conseguiria ou não o tão sonhado EFI (Every Fabulous Inchi), o certificado concedido pela organização do Tour D’Afrique de que o ciclista percorreu todos os polegares do fabuloso solo africano sem ajuda dos veículos de apoio – muitos, devido a cansaço, doenças e outros incidentes, tiveram de pedir carona e perderam a premiação. A resposta é contada ao fim do livro. Não há spoiler para os amigos.