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“O colonialismo ainda está conosco”, diz Helon Habila

por Marsílea Gombata publicado 17/10/2015 03h23, última modificação 17/10/2015 20h28
Atração da Flica 2015, autor nigeriano fala sobre a exploração de países pobres e alerta sobre necessidade de mudar a forma como nos vemos
AFP PHOTO/FLORIAN PLAUCHEUR
nigeria

Ókada, como são chamados os mototáxis na Nigéria, esperam por passageiros em Lagos

De Cachoeira (BA)

De que vale a independência dos países se nossos líderes ainda se rebaixam às ordens de organismos internacionais – do Fundo Monetário Internacional às agências de risco –, nossas populações parecem sucumbir às exploração de recursos naturais e miramos a Europa ou os Estados Unidos como norte?

Uma das vozes mais críticas à realidade da Nigéria hoje, o escritor Helon Habila lembra que tanto países da África quanto da América Latina precisam reescrever sua história e modificar a forma como veem a si mesmos. “Para controlar um povo, primeiro se controla a sua história. A maior parte da nossa história atual foi escrita pelas potências coloniais, e elas nos dizem que somos fracos, ignorantes e indefesos”, critica em entrevista à CartaCapital.

Atração da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano) e sem nenhum livro publicado no Brasil, o autor nigeriano também é jornalista – ofício que exerce como resenhista do britânico The Guardian – e protagoniza neste sábado 17 a mesa Diálogos ao lado do poeta baiano José Carlos Limeira.

Entusiasmado com sua primeira vez no Brasil, Habila insiste que sua geração está mais preocupada com temas existenciais, mas que não deixam de refletir angústias de um contexto político e um amanhã difíceis para os povos africanos: “A Nigéria é o 7º ou 8º maior produtor de petróleo do mundo, mas o dinheiro não chega às pessoas pobres”, lembra. “Nossa cultura está morrendo e tudo o que temos é a cultura ocidental. Temos um longo caminho a percorrer para alcançar a verdadeira independência”.

Leia a seguir a entrevista:

CartaCapital: O senhor crê que sua literatura faz um contraponto a autores africanos conhecidos mundo a fora, como J. M. Coetzee (autor de Verão, Cia. das Letras), que é sul-africano e descende de colonizadores holandeses e imigrantes alemães e poloneses?

Helon Habila: A África é um continente grande e diversificado, com cerca de 54 países. Naturalmente haverá diferenças, bem como semelhanças em nossas literaturas e histórias. Eu penso sobre diversidades geográficas, mas há também artísticas, bem como entre gerações. Cada geração tem sua própria questão premente. A última geração estava mais preocupada com colonialismo e independência. Minha geração está mais preocupada com questões existenciais e privadas. Eu não tento ser diferente de qualquer escritor, não conscientemente. Apenas tento escrever meus livros da melhor maneira que eu puder.

CC: Um dos seus livros mais aclamados, Oil on Water (2011), fala sobre poluição ambiental e exploração de recursos minerais em detrimento da dignidade humana. São problemas atuais, que países com abundância de recursos naturais enfrentam. O que fazer para detê-los ou mudá-los, em meio a um processo de internacionalização do capital – na África ainda mais forte com a presença da China em obras de infraestrutura, quando não do Brasil ou dos Estados Unidos?

HH: A Nigéria é o 7º ou 8º maior produtor de petróleo do mundo, o que rende muito dinheiro advindo do petróleo, mas, infelizmente, o dinheiro não chega às pessoas pobres. Além disso, a terra e os rios estão sendo destruídos pelas empresas petrolíferas, e falta ao governo vontade para deter isso. Eu acho que cada governo tem o dever de proteger seu povo e compartilhar os recursos nacionais que Deus deu ao país. Não importa quem são os parceiros do governo, a China ou o Ocidente. A coisa mais importante é ter certeza de que esse parceiro respeita as leis da terra, e que o meio ambiente está sempre protegido. É sobre isso que meu livro trata, e é por isso que ainda continuamos a lutar na Nigéria.

Helon Habila
“Nossa cultura está morrendo e tudo o que temos é a cultura ocidental. Temos um longo caminho a percorrer para alcançar a verdadeira independência”, afirma Habila, na Flica

CC: Em outro livro seu, Measuring Time (2007), um dos irmãos sonha em ser soldado e conhecer uma linda mulher, enquanto outro sonha em rescrever a verdadeira história do seu povo. O quanto disso fala sobre neocolonialismo? O quanto ainda somos colonizados – países africanos e latino-americanos? Como reescrever nossa própria história, se nos ensinaram a olhar com as lentes deles?

HH: O colonialismo ainda está conosco, infelizmente. A maioria dos países africanos são independentes desde 1960, mas ainda nada mudou. Como (o escritor queniano) Ngugi wa Thiongo disse, ainda estamos colonizados mentalmente. Nossos líderes ainda recebem ordens do Banco Mundial e do FMI. Nossos líderes ainda são escolhidos pela Europa e EUA, nossa cultura está morrendo e tudo o que temos é a cultura ocidental. Temos um longo caminho a percorrer para alcançar a verdadeira independência, e verdadeira independência só pode ser alcançada de duas maneiras: mentalmente e economicamente. O que precisamos é uma contínua reeducação cultural, a partir de nossas escolas e nossos artistas. Measuring Time tenta explicar que a história é apenas uma construção. Para controlar um povo, primeiro se controla a sua história. A maior parte da nossa história atual foi escrita pelas potências coloniais, e elas nos dizem que somos fracos, ignorantes e indefesos. Temos de reescrever a nossa história e mudar a forma como vemos a nós mesmos.

CC: Além de escritor, o senhor é jornalista, ponto de vista que fica claro em seu primeiro romance, Waiting for an Angel (2002). Como jornalista está acostumado a vivenciar momentos de censura em relação a direitos das minorias, como os homossexuais. Como é ser um jornalista e uma voz artística crítica em seu país? O senhor é censurado ou sente medo?

HH: Tenho tido sorte até agora. Eu nunca fui preso ou detido por causa da minha ficção ou do meu jornalismo. Mas você está certa: no meu país, e em muitos países ao redor do mundo, escritores são uma espécie em extinção. Mas eu nunca vou mudar o que escrevo ou permitir ser censurado por causa do medo. Tenho a sorte de agora viver nos EUA, onde tais liberdades são protegidas e respeitadas.

CC: O senhor já havia estado no Brasil antes? Conhece ou gosta de algum escritor brasileiro? Qual imagem o senhor tem do Brasil?

HH: Eu nunca havia estado antes no Brasil. Tenho ouvido grandes coisas sobre o País e estou ansioso para descobrir mais sobre sua literatura e cultura. Quando penso no Brasil, logo penso em futebol. Sou um grande fã.

 

*A repórter viajou a convite da Flica 2015.