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A praça é nossa

por Vitor Knijnik — publicado 02/04/2013 16h41, última modificação 02/04/2013 16h47
Na ação contra os índios no Rio, a polícia agiu dentro da lei. Das leis instituídas aqui após a minha chegada, em 1549
Blog do Padre Manuel da Nóbrega

Do blog do Padre Manuel da Nóbrega

É com muita alegria que saúdo a volta dos jesuítas ao noticiário internacional. A eleição do Cardeal Bergoglio a papa nos colocou de volta nas capas das revistas, mas é o Rio de Janeiro que se tem mostrado mais promissor para a volta dos anos de glória de nossa Ordem. A Rua São Francisco Xavier, um jesuíta e espanhol, não sai dos boletins diários com seu trânsito insuportável e a remoção dos índios da Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio, tem tudo a ver com a minha teoria da guerra justa.

Tenho lido muitas críticas à ação que retirou os indígenas do espaço que será demolido para as obras da Copa. Aos leigos, explico que a polícia agiu dentro da lei. Das leis instituídas aqui após a minha chegada, em 1549. A premissa básica é que, se o gentio se recusa a abandonar a área que ocupa em favor da civilização ou tenta impedir a salvação de sua própria alma, pode-se utilizar auxílio militar. Até mesmo escravizá-los. É uma violência justificada, uma guerra justíssima. Afinal, o consentimento gerado pelo medo tem sido utilizado por governos há tempos. Além de Jesus ao nosso lado, temos a jurisprudência.

No desenrolar da ação, pude fazer algumas associações livres com a colonização do Brasil. A tropa de choque, ao forçar a desocupação, tinha o fervor de quem convertia o gentio. Se estivéssemos no século XVI, diria que eram os verdadeiros Soldados de Cristo. Sem a cruz e a água benta, claro. Mas com os sempre eficientes sprays de pimenta e gás lacrimogênio. Estes últimos com a vantagem de já induzirem o choro de arrependimento.

Além disso, havia lá toda a espécie de gente. A maioria lembrava o Padre António Vieira, querendo defender os perseguidos. Passaram um bom tempo dando sermões para os representantes do governo, apresentando seu catecismo para os repórteres e usando o seu conhecido poder de oratória. Mais um pouco e era capaz de ouvir alguém defendendo a antropofagia e a nudez das indiazinhas, corrompendo a moral da Cidade OlímpicaTM.

No fim das contas, nada disso importa. Regressamos com tudo. Ôôôôôôô a Companhia de Jesus voltou! É, como dizem por aí, o mundo está voltando ao normal: os jesuítas são, de novo, os bonzinhos; e os índios, os caras maus.

 

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