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Política

O jovem morre, a comunidade grita e o governo se cala

por Joseh Silva — publicado 29/10/2013 16h51
O Estado entende que o jovem da periferia precisa ser "tratado". Mas quem precisa ser tratado? O jovem que trabalhava e morreu ou o policial que atirou "sem querer"?

No domingo 27,o jovem Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos, foi vitima de um disparo de arma de fogo em uma abordagem policial. Douglas foi socorrido, mas não resistiu. Ele estudava o terceiro ano do ensino médio e trabalha em uma lanchonete como chapeiro.

No sábado 26, o cabeleireiro Severino Paulo, 49 anos, morador do Parque Regina, região do Campo Limpo, também morreu ao ser baleado por um policial que perseguia homens em fuga. Segundo testemunhas, os policiais chegaram atirando, mas não houve troca de tiros, como alegam os PMs.

No caso do jovem  Douglas, o policial declarou que o disparo foi acidental. Segundo ele, a arma disparou quando abria a porta. Segundo o irmão da vitima, que andava com ele na hora do fato, “eles já chegaram e deram o tiro de dentro do carro” .

O caso do Douglas aconteceu dois dias depois do lançamento do programa do Governo Federal Juventude Viva, que visa reduzir a vulnerabilidade da juventude pobre, negra de periferia e criar estratégias de prevenção à violência. O lançamento foi no CEU Casa Blanca, Campo Limpo, Zona Sul.

Para o lançamento, estava confirmada a presença da Presidente Dilma, que dois dias antes evento, cancelou sua participação. Outro político que deveria estar presente, era o Governador Geraldo  Alckmim. Mas ele não compareceu. Acredito que nem convidado foi.

O Juventude Viva, na prática, não tem nada de novo. A proposta é simplesmente aproximar políticas públicas para os territórios onde há maior índice de mortes e vulnerabilidade social. Entretanto, isso deveria acontecer, independente do programa. Isto só atesta que, de fato, o Governo Federal, Estadual (menos ainda) e Municipal não tem um real comprometimento com a juventude do país.

O programa é mais uma medida paliativa, que tem como objetivo dar a sensação que o governo vem fazendo algo pela juventude. Enquanto não houver uma mudança estrutural, nada acontecerá.

Há anos os governos vêm tratando a juventude (em especial da periferia) como problema. Então, pensam em projetos ou programas, fecham parcerias com organizações e oferecem um “placebo social” como a solução. Entendem que é o jovem que precisa ser “tratado”, pois ele é o violento.

No entanto, quem precisar ser tratado? O jovem que estudava, trabalhava, tinha uma vida a ser construída ou o policial que atirou no peito do menino? Quem precisa de ajuda, a juventude que está tentando sobreviver ou quem tem licença institucional para agredir e matar jovens nas periferias do país? Programas  como o Juventude Viva deveriam também tratar dos policias e dos governantes que apoiam descaradamente a política de higienização social.

Há outra situação que precisa ser notada. Segundo informações, a policia foi chamada por conta de uma denúncia de carro com o som alto na rua. Outra questão delicada, pois não é a policia que deveria lidar com esta situação. O correto seria uma ação da prefeitura, através do Programa de Silêncio Urbano (PSIU).

Quando o PSIU é acionado, a vistoria não é feita de imediato. Segundo o site da prefeitura, “ao contrário do que pode se supor, não é possível fazer as vistorias no momagênento em que as denúncias são feitas”. Isso porque elas são montadas com antecedência, pois podem precisar da participação de outros órgãos, como as Polícias Militar e Civil, Guarda Civil Metropolitana, Contru, Vigilância Sanitária e CET.

Quem perde um ente da família dificilmente consegue lidar com isso. Desestrutura qualquer um, e é ainda pior quando a violência parte de um governo mantido com seus impostos. Não é fácil ver que um agente do governo pode matar, principalmente negros e pobres.