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O Funk e o Rap contemporâneo tem muito o que aprender com Hip Hop “noventista”

por Joseh Silva — publicado 07/03/2014 17h20, última modificação 09/04/2014 13h25
É ingenuidade não levar em consideração que as letras do estilo Funk Ostentação também são fruto de uma política de consumo
Divulgação
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Emicida e Mc Guimê na gravação clipe da música País do Futebol

Que o hip hop e o funk têm ligações desde quando surgiram, é evidente. Seja nas décadas de James Brown, Mano Brown; Cidinho e Doca, RZO; Guimê e Emicida,  os estilos sempre dialogaram: na ideologia ou na origem. Hoje, ambos estão de mãos dadas, seguindo em direção à burguesia e dando as costas para um trabalho de base que deu frutos e ainda multiplica conhecimento.

É importante destacar que o hip hop é um movimento formado por quatro elementos: Dj, Mc, Break e Grafite. O rap é a fusão do Dj e do Mc.

Na década de 90, época de muitos conflitos na Zona Sul de São Paulo, o hip hop, mesmo sem pretensão,  salvou milhares de jovens, não só em São Paulo, mas em todo o país. Havia trabalho de base sendo executado em diferentes quebradas do Brasil. Em qualquer centro cultural, escola ou associação havia oficinas de pelo menos um dos elementos.

Os shows de rap eram uma espécie de aula pública. Quando o grupo Z`África Brasil se apresentava, o público ia para casa conhecer mais sobre Zumbi dos Palmares. No show do Racionais MC`s, eram citados Martim Luther King, Malcon X e Che Guevara. No do GOG, Mahatma Gandhi.

Nas aulas de rima, os Mc`s falavam de referências da origem do hip hop – África Bambaataa, Nelson Triunfo, King Nino Brown.  Era a história contemporânea sendo contada e vivida por uma juventude que, não optou por ocupar as ruas para protestar contra as mazelas sociais. Mas, no entanto, ocuparam escolas, bares, praças, beco e vielas, com alusões que deram consistências ao trabalho.

Hoje, quem não milita no hip hop pela linguagem da cultura, na qual estão inseridos os quatros elementos, atua indiretamente: produzindo, assessorando, fazendo comunicação, dando suporte, comercializando. Lecionando em escola pública, recitando poesias em saraus (efeito colateral do trabalho de base do hip hop), escrevendo livros e dando palestras.

O funk tem o mesmo potencial que o hip hop teve na década de 90. Os MCs podem abordar em suas letras a realidade social que lhe aflige ou já os angustiou. Alguns alegam que se começarem a cantar letras mais conscientes não terão espaços para cantar. Racionais, Realidade Cruel, MV Bill, Thaide, GOG. Estes artistas lotam shows com letras que fazem crítica ao consumo, a política e ao status quo.

Não levar em consideração que as letras do estilo funk ostentação são fruto de uma política de consumo, é uma ingenuidade. Há pelo menos cinco anos, o governo federal vem pregando a falácia do surgimento de uma nova classe média. A inclusão pelo consumo tem sequelas.

Hoje, nas periferias, os adolescente andam com boné de 300 reais, tênis e celulares de mil reais. Há sempre relatos de jovens que foram assaltados quando voltam de festas ou baladas durante a madrugada. Corrente e relógio também são bem vindos.

Muitas vezes quem comete os assaltos são adolescente de bairros mais afastados. Eles querem ter. Eles anseiam ser a nova classe média. Eles querem exercer o consumo. Tenho, logo existo.

O hip hop utilizou sua força de formador de opinião e fez um trabalho de base disseminando discursos de unidade e, libertação. São jovens que morreram para serem homens livres de verdade. Hoje são pouco os envolvidos, espaços e organizações continuam o trabalho.

O funk e o rap contemporâneo têm muito o que aprender com o hip hop “noventista”. Ainda há pessoas que fazem um trabalho de muita relevância dentro do movimento, mas que aspira cuidados.