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Política

São Paulo

Enchente: inevitável ou negligência do município?

por Joseh Silva — publicado 24/01/2014 14h44, última modificação 27/01/2014 12h58
Para moradores do Jardim Maria Sampaio, que tiveram as casas atingidas, pode ter havido falta de manutenção nas bombas do piscinão
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Pilha de móveis fecha rua no Jardim Maria Sampaio

Na manhã de quinta-feira 23 o Jardim Maria Sampaio, no Campo Limpo, teve diversas ruas e avenidas bloqueadas. Algumas pela manifestação organizada por moradores do bairro por conta da chuva forte que causou danos e deixou desabrigados. Outras estavam bloqueadas por móveis cheios de lama: sofás, mesas, televisão, geladeira, panelas e roupas que viraram lixo.

Alguns não entendiam como a água havia subido tão depressa. Tudo havia acontecido em apenas duas horas. “Eu moro aqui há tantos anos. Teve chuvas piores. No Natal mesmo foi muita água”, dizia Sérgio Araújo. “O problema é que não fizeram a manutenção do piscinão [Maria Sampaio] e há duas bombas que não estão funcionando”. A desconfiança de Sérgio é compartilhada pelos vizinhos.

Jucilene Oliveira, 32 anos, reforça a reclamação. Ela teve a casa, que ficava à beira do córrego, arrastada pela água. “Essa bomba não funcionou. Tem gente que fala que nem tem nada ali, que ela [a bomba] foi roubada”. Segundo a Subprefeitura do Campo Limpo, responsável pelo piscinão Maria Sampaio, consta em “relatório do dia 26 de dezembro, que o local se encontrava em situação de limpeza adequada”. O órgão, entretanto, não respondeu se as bombas estavam funcionando.

Enquanto moradores carregavam móveis, eletrodomésticos e roupas e lavavam calçadas e carros, técnicos da Defesa Civil vistoriavam o local. Ansiosos por uma solução, moradores os seguiam aonde iam. “Moço, moço, vem ver minha casa. Será que posso ficar aqui?”, perguntava uma moradora ao funcionário da prefeitura. “Vai passar um engenheiro aqui para avaliar se a senhora poderá ficar aqui. Aparentemente, está tudo bem. Só esta parede que está sendo pressionada pela água”. Quem orienta a moradora é Jair Paca de Lima, coordenador da Defesa Civil do município.

Após nortear diversos moradores, Jair revela o motivo da enchente: “Houve um transbordamento por conta do represamento. Isso  aconteceu por conta da quantidade de chuva, 101 milímetros em apenas 2 horas. Calculamos que cerca de 600 famílias foram atingidas. Pode ter sido mais”.

Duas funcionárias da Secretaria de Assistência Social estiveram no local para fazer o cadastro das famílias para receberem colchão, material de limpeza e cesta básica. Moradores esperavam ansiosos o atendimento e achavam que a fila era para conseguir uma nova moradia.

A maioria das casas que margeiam o córrego estão com numerações que, segundo os moradores, foram os funcionários da defesa civil que estiveram no local há anos. Condenaram as casas alegando que era área de risco e não voltaram. Jucilene, prevendo que o retorno não viria, foi em busca de soluções:  “Eu estive na subprefeitura [do Campo Limpo]. Fiz um cadastro para moradia e estou aguardando até hoje”. Ela não diz que isso já faz pelo menos cinco anos.

O Córrego Pirajuçara contorna diversos bairros. Foram diferentes lugares e vários danos. Quase todas as ruas próximas ao córrego estavam com montes de lixo, barro e objetos das casas. Na maioria dos lugares, os representantes da defesa civil e da assistência social não chegaram. Sentindo-se abandonados, os moradores agiram.

Cerca de 50 pessoas foram até a Avenida Carlos Lacerda, próximo ao CEU Campo Limpo, fecharam a rua, montaram barricada com lixo e móveis e atearam fogo. Um carro foi incendiado.

Próximo dali, na Rua Augusto Tavares, moradores chegaram com colchões, guarda-roupas, sofás, madeiras e atearam fogo. Eles montaram três barricadas. A ação durou cerca de 40 minutos. Nenhum funcionário da prefeitura compareceu ao local. Insatisfeitos, todos desceram a rua em direção à Estrada do Pirajuçara – Valo Velho, montaram mais barricadas, pararam um ônibus. Os passageiros desceram e o veículo foi incendiado.

Para conter os moradores, viaturas da Policia Militar chegaram no local. Porém a ação da PM foi desnecessária. Começava a chover forte novamente. Os moradores correram – não da polícia, mas para suas casas com a intenção de salvar o que ainda restava. Quem já havia perdido tudo buscava apenas um abrigo.