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Política

Entrevista - Conrado Ferrato

O que está por trás de incêndios nas favelas de São Paulo?

por Joseh Silva — publicado 09/06/2014 09h26, última modificação 09/06/2014 13h40
Em entrevista, o jornalista Conrado Ferrato, um dos produtores do documentário Limpam com Fogo, fala sobre especulação imobiliária, CPI dos incêndios e reurbanização
Felipe Tesser / Fotos Públicas
Incêndio favela

Imagem de abril mostra incêndio que atingiu uma favela no bairro da Penha, na zona leste São Paulo. O fogo destruiu a maior parte dos barracos próximo ao viaduto Aricanduva

Nos últimos 20 anos, mais de 1,2 mil incêndios foram registrados nas favelas da cidade de São Paulo, sendo que metade deles ocorreu entre 2008 e 2012. De acordo com o documentário Limpam com Fogo, produzido de forma independente pelos jornalistas César Vieira, Conrado Ferrato e Rafael Crespo, isso não é uma coincidência. Há, segundo a produção, uma relação próxima entre o boom imobiliário registrado em algumas regiões da maior cidade do País e o crescente número de incêndios.

Nesta entrevista, Conrado Ferrato, um dos produtores do filme, afirma que os incêndios respondem a uma lógica seletiva. O fogo beneficia determinadas empresas e tem como causa a contínua precarização das comunidades. Segundo Ferrato, os incêndios podem não ser deliberados, mas ocorrem por falta de ação do poder público. "Quando falamos que a especulação está por trás dos incêndios não estamos querendo dizer que construtoras e incorporadoras acenderam um fósforo, queimaram as favelas e construíram um prédio no lugar", diz. "É algo mais sutil. Não se trata de tacar fogo, mas de deixar queimar", afirma.

Joseh Silva: A proposta do documentário é provar que os incêndios têm ligação com a especulação imobiliária?
Conrado Ferrato: Sim, desde o começo a nossa proposta é mostrar o que acontece por trás dos incêndios, a relação deles com a especulação imobiliária. Porque existe, e uma análise da distribuição geográfica dos incêndios deixa clara uma relação direta entre a localização das favelas e frequência/gravidade dos incêndios. Aqui eu recomendo entrar no site Fogo no Barraco e ver como os incêndios se concentram no centro expandido da cidade, apesar da distribuição de favelas na cidade não mostrar uma concentração delas nessa área. Os incêndios não são aleatórios, eles respondem a uma lógica seletiva.

JS: Como vocês pretendem provar isso?
CF: Cruzando os dados dos locais dos incêndios com a distribuição das favelas na cidade e a valorização imobiliária nas regiões que mais registraram incêndios nos últimos anos. Se você adicionar no Fogo no Barraco uma camada com as operações urbanas na cidade vai ver como os incêndios acontecem com maior frequência nessas áreas – que são justamente as regiões que estão passando por uma valorização. Além disso, vamos mostrar o funcionamento do setor imobiliário na cidade de São Paulo – que passa pela lógica de compra de terrenos por preços melhores do que aquele que será vendido e envolve uma maquinação financeira complexa. A forma como esse sistema funciona cria o ambiente para existir quem lucre com o desaparecimento de favelas. Por fim, vamos tentar mostrar também como os próprios moradores dos bairros mais abastados fazem pressão para que as comunidades localizadas no centro expandido continuem na situação de vulnerabilidade em que estão e, assim, mais suscetíveis a grandes incêndios.

JS: O que está por trás destes incêndios?
CF: Existe muita coisa por trás, mas podemos tentar resumir tudo em uma palavra – gentrificação. A cidade virou um negócio. O que move os processos de urbanização/reurbanização em São Paulo é a lógica da indústria de imóveis, que lucra mais quanto mais caro forem os preços. Assim, o que for indesejado, o que atrapalhar a valorização, é eliminado. Isso afeta todos e a classe média começa a sentir os efeitos disso agora, mas as comunidades mais pobres sofrem com isso já tem muito tempo. Quando falamos que a especulação está por trás dos incêndios não estamos querendo dizer que construtoras e incorporadoras acenderam um fósforo, queimaram as favelas e construíram um prédio no lugar – isso é uma simplificação grosseira. É algo mais sutil. Pense que um bairro que vem se valorizando está passando por muitas obras, que atraem mais interesses para essa região. Esses interesses envolvem coisas como melhorias de mobilidade, lazer e segurança – esse último quase sempre se traduz em uma vigilância sobre as favelas da região. Essa vigilância impede a consolidação dessas comunidades, que mantêm um caráter construtivo precário, com paredes de papelão e madeira e alta densidade de moradias, todos os fatores que contribuem para um grande incêndio. Não se trata de tacar fogo, mas de deixar queimar.

JS: Chegaram a identificar como eles acontecem?
CF: Os incêndios em favelas podem ter inúmeras causas – desde um botijão mal instalado, uma panela esquecida no fogo, uma vela ou até uma bituca de cigarro. Na maioria dos casos o evento causador é irrelevante, sendo mais interessante ver todo o processo que levou aquela comunidade a estar tão vulnerável. Ainda assim, existem algumas evidências que devem ser ponderadas em alguns desses incêndios. Na favela do moinho, por exemplo, os focos dos incêndios sempre estão nas beiradas, fato que não foi levado em consideração nas investigações.

JS: Tiveram respostas do poder público?
CF: Quando começamos nosso trabalho já acontecia na Câmara dos Vereadores uma CPI sobre o assunto. Assim, acompanhamos as reuniões esperando que uma resposta do poder publico surgisse dessa comissão. Porém, nos primeiros meses de existência a CPI teve a maioria de suas reuniões postergadas por falta de quórum, o que lesou em muito as investigações. Os movimentos sociais pressionaram os vereadores participantes, mas mesmo assim os trabalhos não foram feitos à altura da importância do tema. O relatório final da CPI é extremamente vago e inconclusivo, dando como principal fator para o grande numero de incêndios o clima seco da cidade e sugerindo o fortalecimento de programas de combate aos incêndios nas comunidades – programas que já existiam.

JS: Conseguiram identificar a relação com alguma construtora?
CF: Ainda não podemos falar sobre isso. Mas estamos investigando e logo poderemos falar em alguns nomes.

JS: Vocês acompanharam a CPI dos incêndios? O que acharam?
CF: Como um dos nossos entrevistados diz, “foi pra inglês ver”. Em nenhum momento os membros da CPI mostraram o interesse necessário para um tema tão importante – vale lembrar que estamos falando de um fenômeno que envolve mortes e deixa pessoas em condições de mendicância. Ao mesmo tempo, é interessante ver que todos os vereadores da CPI tiveram entre os patrocinadores de suas campanhas eleitorais empresas do setor imobiliário. Existe uma bancada do concreto em São Paulo, e ela não tem o menor interesse que se investigue temas como esse.

JS: Em 2012, um dos motivos apontados pela mídia e o poder público foi o tempo seco na cidade. Isso influencia?
CF: Segundo os dados levantados, existe sim uma influência do clima nos incêndios. Um clima mais seco cria um ambiente mais propício para a propagação do fogo. Porém, ele não é o único fator e a importância dada a ele em 2012 foi muito exagerada. Basta ver que no ano seguinte houve uma queda de aproximadamente 70% no numero de incêndios em favela na cidade de São Paulo. Essa variação abrupta já é suficiente para perceber que existe fatores mais importantes que o clima quando se fala em incêndios em favela na cidade de São Paulo. O clima é culpado muito útil porque ele é inócuo – ninguém controla o clima, é uma fatalidade. Incêndios em favelas não são fatalidades – eles são construídos, respondem a uma lógica perversa e existem responsáveis por eles.

Assistam parte do vídeo documentário Limpam com Fogo