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Ex-internos revelam histórias da Fundação Casa

por Joseh Silva — publicado 24/10/2013 17h40, última modificação 24/10/2013 18h01
"Quando o 'choquinho' entra, funcionários saem. Ficam só a policia e os moleques, e eles descem o cacete". Joseh Silva ouviu histórias de 3 ex-internos da antiga Febem
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Na foto de Joseh Silva, o ex-interno Diogo, na zona sul de São Paulo [foto: Joseh Silva]

O adolescente Diogo* é hiperativo. Não consegue ficar parado, fala bastante, solta uma gíria atrás da outra. O dialeto das ruas é afiado. Tem postura e, apesar da idade, a oratória demonstra uma narrativa de vida fora do comum. Ele tem 16 anos e mora no Jardim das Rosas, quebrada do Capão Redondo. Aos 15 anos, foi preso de “laranja”: “Eu estava indo para casa, à noite, e tinha um amigo subindo de moto, me ofereceu uma carona, eu fui com ele. Antes de entrar na minha rua, fomos enquadrados. Truta, a moto era roubada. Segurei com o mano.”

Diogo ficou três meses preso na unidade da Fundação Casa do Tatuapé . Hoje está em Liberdade Assistida (LA). “No LA ele está livre, mas é acompanhado por uma equipe que cria com ele e com a família um plano de vida, com o objetivo dele não voltar a infracionar”, explica Guilherme Souza, gerente de um Serviço de Medida Sócio Educativa (SME) do governo de São Paulo.

A Fundação Casa, antiga Febem, é a entidade do governo estadual para a qual são levados os menores infratores do estado de São Paulo.

No Serviço em que Guilherme trabalha, há 105 jovens. “Toda semana chega em média mais dois”. Ele conta que a maioria está ali por roubo, tráfico, furto e "conflitos familiares".

A família é um fator importante e pesa na hora das escolhas, por menores que sejam. E foi isso que fez com que Anderson Araújo, 23 anos, resolvesse voltar para unidade, depois de uma fuga. “Fugi por que não aguentava mais a situação ali”. Anderson foi detido em 2005, e ficou no Tatuapé na Unidade 20. “Tenho a memória ruim,  mas me lembro de alguns detalhes, como a fuga em massa, onde foram embora mais de 500. Isso aconteceu por conta de vários problemas que aconteciam lá dentro. Muitos maus tratos e outras questões que a mídia não mostra. Lá dentro os caras oprimem, falam o que querem e ninguém fala nada, ninguém vê.”

Quando se fala em Fundação Casa, as referências são: rebelião, agressões, privação e ausência de direitos humanos. Quando a mídia noticia a Fundação, via de regra, é sempre por este recorte.

"Choquinho"

A sociedade tem a ideia de que o abuso acontece em todas unidades. O Gerente de Medida Socioeducativa, no entanto, acredita que não. “Tem unidade em que a violência não acontece”. mas admite: “a maioria tem agressão física e psicológica”.

No serviço em que Guilherme atua, uma opinião é unanime quando se trata de violência nas unidades. Segundo os jovens, quem mais agride é o “Choquinho” – como é conhecida a tropa de choque que reprime as rebeliões nas unidades. “Quando eles entram, os funcionários saem. Aí fica só a policia e os moleques, e eles descem o cacete. Batem a ponto de quebrar braço, os meninos sangram, ficam cheio de marcas. O que mais me impressiona é que isso não aparece [na mídia]”. Relata.

O adolescente pode denunciar casos de abuso para o promotor, e a Fundação também pode encaminhar uma denúncia.  “Não é todo mundo que é omisso”, afirma Guilherme. E ressalva: "o problema é o processo. Normalmente os adolescente têm medo de represália. Ou, no caso de meninos em liberdade, não querem mais levar o assunto adiante, dizem que não querem mais lidar com situações que envolvem a justiça."

Escolheu ser preso

Anderson, mesmo na rua, decidiu voltar. Ele havia fugido com mais centenas de meninos: “quando fugi, fiquei por muito tempo refletindo e cheguei à conclusão que aquela vida não era mais pra mim. Fiz várias conversas com meus pais, entramos num consenso e eu decidi voltar para unidade. Isso pro crime é um desonra. Mais foi uma escolha minha”.

O maior impacto para Anderson foi no fórum diante do Juiz. “´É mesmo, cara. Você quer fazer isso?´, ele perguntou . Ai ele me deu  cinco minutos para pensar, disse que eu poderia sair pela mesma porta que eu entrei e que ninguém ia me prender. Mas quando eu sai de casa, já estava decidido. Então, fui encaminhado para a Raposo Tavares”. Ele cumpriu mais seis meses de reclusão.

A opinião dos três entrevistados é unânime: a Fundação Casa não recupera o adolescente. “Serve só para isolar o menino. Não vai recuperar ou melhorar".

O que vai melhorar é se tiver a Politica Pública”, relata Guilherme. Para Anderson, “o único papel da Fundação é tirar o cara sociedade”. Diogo, que está na rua há três meses, tem uma opinião mais firme: “se o menor tiver como meta sair da vida do crime, ele vai sair. Mas se ele é da vida do crime, vai sair pior. Os funcionários até incentivam. Quando você tá indo embora eles falam: “mês que vem você está ai, né? Natal você vem passar com nós.”

 

* Os nomes reais dos entrevistados foi alterado para garantir a segurança dos mesmos.