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Política

A música política do rapper Azagaia

por Joseh Silva — publicado 16/03/2014 21h10, última modificação 17/03/2014 10h08
Em letras de enorme sucesso, e num estilo que lembra os Racionais, o moçambicano denuncia injustiça social e misérias políticas de seu país
Making of Clip "Homem Bomba"
azagaia.png

Imagem do próximo clipe "Homem Bomba" do rapper Azagaia. Lançamento 2014.

O rapper Azagaia, 30 anos, faz história na música de Moçambique e no hip hop mundial. Nascido na Vila de Namaacha, filho de uma moçambicana e de um cabo verdiano, Azagia vai para Maputo, capital do país, aos 10 anos de idade. Foi lá que concluiu o ensino médio e entrou na universidade e na música, fazendo parte do grupo Dinastia Bantu. Na mesma época conheceu o movimento humanista. Iniciava-se aí, a carreira de um rapper ativista no sul do continente africano.

Sua música assemelha-se muito com o rap brasileiro da década de 90, quando grupos como Racionais MC’s, RZO e Thayde e DJ Hum, GOG, Consciência Humana, De Menos Crime, entre outros, denunciavam o que acontecia em suas comunidades. Apesar de muita semelhança, Azagaia tem uma visão mais abrangente e política sobre o contexto nacional e internacional que circunscreve o cotidiano de seu país.

Batizado como Edson da Luz, Azagaia iniciou a sua carreira musical no hip hop em 2006. No ano posterior ingressou na gravadora Cotonete Records e lançou o álbum Babalaze, polêmico por conta da música “As mentiras da verdade”. Nela, o rapper coloca em questão alguns acontecimentos históricos que influenciaram a trajetória do país. Por exemplo, a controversa morte do ex-presidente Samora Machel. Líder revolucionário de inspiração socialista, que liderou a guerra de independência e se tornou o seu primeiro presidente de Moçambique, ele morreu num acidente de avião em 1986. Para Azagaia, foi um assassinato. Tratava-se de uma crítica que há muito não se ouvia e que gerou debates em diversas camadas sociais e econômicas do país. Babalaze mostrou quem de fato era o rapper. Diante a abordagem da música As mentiras da verdade, as próximas canções eram esperadas com ansiedade pela juventude moçambicana. Azagaia continuou a apontar suas rimas em direção ao governo. A Marcha surge com uma abordagem fortemente crítica e bateu recordes de vendas. Em dezembro de 2007 e de 2008, Azagaia lançou os sons Obrigado Pai Natal e Obrigado de Novo Pai Natal, onde ele faz uma retrospectiva dos principais acontecimentos do ano no país, segundo seu ponto de vista. Em 2009, lançou o vídeo Combatentes da Fortuna. Sobre esta música, o rapper diz ter se inspirado na crise do Zimbábue. No ano de 2010 lançou a música Arriiii e Povo no Poder (veja história abaixo), que retrata um escândalo de tráfico de drogas em Moçambique, bem como outros casos de fuga ao fisco e assassinatos.

Apesar da pouca idade, Azagaia aborda questões sociais e políticas com profundidade. Critica em suas letras o governo moçambicano, a polícia e as mazelas cotidianas daquele povo. É um Rapper que tem muito a acrescentar no "caldo" do hip hop mundial. E os MCs devêm prestar muita atenção nas canções dele, pois dá ao rap a importância que ele merece.

Trilha sonora da revolta popular

Em primeiro de setembro de 2010, aconteceu na cidade de Maputo, capital de Moçambique, um protesto que envolveu grande parte da população. O fato sucedeu porque o governo havia anunciado o aumento nos preços de produtos de primeira necessidade: pão (essencial na dieta local), eletricidade, combustível, água e transporte. Mensagens por celulares convocaram manifestantes para interromperem com barricadas as estradas e as ruas. Veículos atravessados no meio das vias e pneus incendiados, fizeram com que o município permanecesse incomunicável. O transporte público parou, comerciantes baixaram as portas, postos de gasolina, padarias e mercados foram saqueados. Pedras e outros objetos foram lançados em direção a policia que disparava contra o povo sem pudor, porém população estava disposta a continuar, caso o governo prosseguisse com o decreto.

Os jornalistas de emissoras públicas foram orientados a não cobrir as manifestações. Além das agências de notícias, foram poucos os meios de comunicação, inclusive internacionais, que divulgaram o despertar da população. Na ocasião o ministro do Interior, Jose Pacheco classificou os manifestantes como “aventureiros, bandidos e malfeitores”, e pediu ponderação por parte deles. Nos bairros periféricos registraram-se os confrontos mais violentos. Segundo estatísticas oficiais foram 13 mortos e mais de 500 feridos. Esta manifestação popular resultou na música Povo no Poder. Confira o vídeo: