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Sociedade

Desigualdade

A mão de obra barata que não agrada a burguesia

Metade dos brasileiros nunca contrataria moradores de favelas: o retrato de uma sociedade onde ricos favorecidos veem pessoas como mercadorias subvalorizadas
por Joseh Silva — publicado 25/02/2015 10h19, última modificação 25/02/2015 11h09
Joseh Silva
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Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Data Popular, que consultou a opinião de 3.050 pessoas em 150 cidades, 47% dos entrevistados nunca contrataria moradores de favelas para trabalhar em suas casas. Os dados explicitam a segregação social em que vivemos e diz muito sobre o preconceito que a burguesia tem em relação às favelas. A priori, a pesquisa ajuda a estigmatizar mais quem vive em condições precárias de moradia e atende a necessidade da burguesia de observar o comportamento do empobrecidos para intuírem como tirarão proveito econômico da situação.

Transparece é que as pessoas que residem em favelas são como uma casta que existe somente para servi-los dentro de uma composição social onde os ricos são os favorecidos, aplicando a meritocracia, e lidando com pessoas como mercadorias subvalorizadas. A nova classe média é serviçal.

“Trabalhei durante 22 anos para uma família. No início, meu pagamento era comida e teto. Depois de muitos anos, meu patrão viu que eu trabalhava certinho e que era uma pessoa correta, então comecei a receber quase um salário. Quando entrei lá, foi só para limpar a casa. Depois que pegaram confiança em mim, fiquei como babá e ajudei a criar os dois filhos dos patrões”. Maria Antônia das Dores tem hoje 54 anos e mora em Santo Antônio do Pinhal, cidade que fica a 170 km de capital paulista.

Decidiu ir para o interior porque não aguentava mais lidar com os problemas que seu filho mais novo, atualmente com 25 anos, vinha causando desde que começou a usar e comercializar drogas. Ele, antes dos 18 anos, havia encarado uma prisão por tráfico e, desde então, passou pelo cárcere duas vezes. Angustiada, a mãe lamenta: “Só tive tempo para cuidar dos filhos do patrão. Dos meus a rua tomou de conta”.

Durante os anos em que trabalhou em Moema como empregada doméstica, Antônia, abandonada pelo pai dos filhos, teve que dormir muito tempo no emprego para garantir renda para alimentar e vestir os meninos. Eles ficavam sob o cuidado da irmã, também mãe solteira que cuidava de mais três filhos. “Às vezes era pesado para ela ficar com cinco crianças, mas não tinha jeito, era isso ou a rua. Eu tinha que trabalhar.”

É por alimentação e moradia que milhares de pessoas saem de suas casas e deixam a família: para atravessar a cidade e servir a burguesia. Domésticas, porteiros, motoristas, caixas de supermercado, repositores, empacotadores, atendentes de telemarketing, lavadores de carro, limpadores de vidro, motoristas. E, para tantos, a condição de viver é tão crônica que só lhe resta pedir nos cruzamentos.

A mão de obra barata que serve a burguesia vem das cerca de 2 mil favelas espalhadas pela Cidade. Milhares de famílias sobrevivem em condições difíceis. Num ambiente composto por ausência e ineficiência de políticas públicas que garantam diretos fundamentais básicos. Lugar em que diariamente é empobrecido pela péssima distribuição de renda, onde o coronelismo de deputados e vereadores regulam as leis, onde o Estado pratica a violência em uma guerra que é o efeito colateral da inabilidade política – ou não.

Para a maioria dos que vivem em favelas, é comum a banalização desta situação, pois há gerações vivem na crise e com a precarização dos serviços públicos. A pífia melhoria em alguns setores sociais serve como um tipo de “cala a boca” para reivindicações que nunca foram proferidas. Para a maioria, ter pouco é o bastante. “Aqui não tenho do que reclamar, tenho meu barraco e trabalho, está ótimo”, afirma Josenice de Melo, 43 anos, que há quase 16 anos trabalha para a mesma família.

Josenice, visivelmente bastante magra e com uma permanente expressão de cansaço no rosto, reclama de dores nas pernas, ainda mais quando tem que subir um escadão e uma ladeira íngreme para chegar ao ponto de ônibus. No final do dia, tomar banho e repousar é a recompensa depois de enfrentar horas de trânsito, cozinhar, lavar e limpar a casa grande sozinha. Ultimamente, por se sentir com bastante fraqueza, acredita estar com anemia ou alguma doença ligada ao pulmão – o cigarro é o seu “psicólogo” há 30 anos. Diz não ter tempo para ficar indo às consultas e exames porque demora demais. Prefere não se estressar com isso.

As duas domésticas se esforçam ou se esforçaram demais para atender às demandas de patrões em troca de um pouco de dinheiro para garantir pão e moradia. Ambas passaram por situações vexatórias dentro de realidades que estão distante das que vivem. Cuidaram de casas grandes, enquanto vivem na incerteza do barraco no terreno da prefeitura; tinham todo o tempo para os filhos alheios, e só o que restava para os seus. Entre sorrisos amarelos e humilhações, fizeram e fazem o que for necessário para manter o trabalho.