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Sociedade

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Com casas interditadas, moradores da favela Erundina sofrem para achar imóveis

por Joseh Silva — publicado 23/05/2014 18h43
Auxílio de 1.200 reais dado pela prefeitura trimestralmente fica aquém do mínimo necessário para se alugar moradia com mais de um cômodo
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Moradora Favela da Erundina

Francilene, moradora da Favela Erundina, cozinha para a família

“Demorei quase três meses para achar uma casa aqui. O valor está bem alto, depois das remoções do pessoal que morava ali perto do córrego*, que recebeu bolsa aluguel do governo. E, agora com as famílias da favela Erundina, os proprietários aproveitaram para encarecer”.

Há dois meses, Sérgio Cícero da Silva, 28 anos, paga 700 reais para residir em uma casa de três cômodos no Jardim Ibirapuera**, zona sul. O polidor de mármore Cícero, pai de um casal de gêmeos, demorou cerca de dois meses para encontrar uma casa em que o proprietário recebesse ele e a família. O processo pelo qual ele passou, moradores da favela Erundina (no mesmo bairro), vão começar a passar: eles tiveram de abandonar suas casas às pressas por conta das rachaduras que começaram a surgir nas paredes e no chão há duas semanas.

Uma questão para os moradores é que, além de haver poucas casas disponíveis para alugar, a maioria não aceita crianças. “Já tomamos vários nãos. Eles falam: ‘a casa é nova, a criança vai estragar, incomodar os vizinhos’”, relata Cícero, que na tentativa de fugir do custo alto do aluguel na região, foi morar em Osasco por um tempo. No entanto, ele teve de retornar para o bairro por conta da distância do trabalho e da família. “Lá eu morava numa casa de cinco cômodos grandes e pagava 400 reais”, contou.

A babá Francilene Mota e os quatro filhos estavam provisoriamente no espaço do CDC do Jardim São Luís. No entanto, por conta de uma festa e da partida de futebol que aconteceria no sábado, ela foi obrigada a deixar o espaço na sexta-feira do dia 9 de maio. “Eles [os administradores do espaço] tiraram as minhas coisas de lá e colocaram na viela”, relata indignada ao acrescentar que mesmo com a casa em risco teve de “voltar para a favela”. “Estamos procurando casas de aluguel, mas não achamos por conta das crianças. Ninguém quer alugar. Fala que não pode. E, quando a gente acha, é o dobro do valor que a prefeitura ofereceu”.

Francilene resiste em ir para outro bairro porque seus filhos estudam em uma escola a 5 minutos de casa. Mas ressalta que mesmo se tivesse encontrado a casa não teria como alugar, pois a prefeitura ainda não repassou o valor para ela. “Fizemos o cadastro para receber o auxilio aluguel. Disseram que iríamos receber em 10 dias, depois aumentaram para 30 dias", lembrou.

A aposentada Maria das Dores, 65 anos, moradora do bairro há 20 anos, aluga há nove um cômodo na favela pelo valor mensal de 250 reais. Ela afirma que sempre tem clientes procurando casa, que depois das remoções aumentou a procura, e lamenta por não ter mais cômodos para alugar: “Se eu tivesse outras casas, não faltariam inquilinos. Estou há nove anos alugando esse cômodo. Não teve um mês sequer que ficou vazio”.

A primeira parcela que a prefeitura repassará para os moradores é de 1.200 reais referente ao período de três meses, dando uma média de 400 reais por mês. Depois, o valor permanente será de 300 reais.

Para Milton Francisco, 42 anos, esse valor está bem abaixo de uma casa digna, que possa abrigar uma família com o mínimo de conforto. Francisco mostra as fotos da casa de seis cômodos, com lavanderia externa e um pequeno quintal “para as meninas brincarem”. “O aluguel de uma casa como essa custaria no mínimo 1 mil reais”, explica. Recentemente, ele investiu “quase 40 mil reais" para reformar a casa. "Coloquei porcelanato, gesso, pintei, apliquei textura. Tinha até porta de vidro”, entristece-se passando as fotos na câmera modelo Cybershot. Ele mora com três filhas, esposa e um primo que chegou recentemente do nordeste.


*O córrego ao qual Cícero se refere é o que está sendo canalizado por conta de uma obra de reurbanização e duplicação da Estrada do Mboi Mirim chamado Córrego Ponte Baixa. Segundo a Secretaria  Municipal de Habitação, para realizar essa obra foi necessário a remoção de 248 famílias, que receberam  o “atendimento social de 1.200 reais, pagos a cada trimestre”.

**O Jardim Ibirapuera é um dos primeiros bairros depois da Ponte João Dias. Tem cerca de 8 mil habitantes. Atualmente a CET pintou as ruas e melhorou a sinalização. Em dois anos, surgiram mais lojas, bares, restaurantes, lotéricas, bancos e até casa de show. Ali também tem uma Fatec e uma unidade da Fundação Casa. Recentemente foi construída mais uma escola de ensino fundamental e aumentou a repressão policial contra jovens. Seriam essas as características do processo de especulação imobiliária?