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O monopólio global tira a máscara

por Nirlando Beirão publicado 22/02/2015 06h38, última modificação 11/06/2015 19h22
A Globo se sente à vontade na cobertura do Carnaval. Ali, jornalismo se confunde com circo
Irapuã Jeferson
Milton Cunha

Com a voz de barítono enferrujado, Milton Cunha não é de vulgaridades, embora esteja num ambiente propício a isso

As coberturas do sambódromo carioca, nas quais a Globo exerce sua propensão ao monopólio, nunca tiveram a mesma graça desde que Lecy Brandão deixou seu lugar. Lecy Brandão exercia como ninguém o name dropping da favela, perdão, da comunidade, citando, um por um, aqueles heróis subterrâneos do Carnaval, artistas dos bastidores condenados a voltar à obscuridade já na Quarta-Feira de Cinzas.

À falta de Lecy, a Globo recorre a Milton Cunha para oferecer ao telespectador compreensivelmente entorpecido por tal massa sonora e tanto estrépito cintilante uma pitada de exótico, em meio a uma cobertura que, a despeito dos esforços da equipe, acaba fadada ao clichê.

O ex-carnavalesco da Beija-Flor exorbita nos trejeitos e, a cavaleiro de um saber enciclopédico que tempera com deboche e autoironia, trata de soltar a franga – para usar a expressão que, cheio de efusões, ele próprio tomou emprestado do enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel. Soltar a franga é o que a correta Fátima Bernardes não consegue, por mais que a Globo insista em situá-la em territórios – o futebol e o Carnaval – dos quais assoma a euforia suarenta do povo.

Com voz de barítono enferrujado, Milton Cunha não é de vulgaridades, embora esteja em ambiente propício a isso. Gostaria de ver um tipo desses comentando um dos shows circenses protagonizados ao vivo pelo Supremo Tribunal.