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Política

Eleições 2014

A ressurreição de José Serra

por Nirlando Beirão publicado 05/10/2014 21h04, última modificação 08/10/2014 11h12
É bom reconhecer que o diagnóstico da morte política de José Serra em 2012 foi prematuro
Divulgação
José Serra

Serra volta ao Parlamento no leito daquela convicção de que ali ele pode se sair melhor

Em outubro de 2012, ao final da eleição municipal, esta CartaCapital publicou, sob o título “José Serra (1963-2012)”, o que parecia ser o necrológio de um político “de interessantes atributos”, como dizia o texto, os quais, porém, ao longo de sua trajetória, iniciada em 1963 como presidente da UNE, Serra tratou, “com prazer suicida”, de transformar em defeitos.

O ex-senador e ex-governador, candidato a presidente contra Dilma Rousseff em 2010, saia derrotado mais uma vez, agora para a prefeitura de São Paulo – por um adversário do rejeitado PT que jamais disputara eleição alguma. Derrotado, antes de mais nada, por si mesmo, convertido em “estrategista da chatice” e em “apóstolo do rancor”.

O diagnóstico foi prematuro, é bom reconhecer. Os livros sobre seres espectrais advertem que nunca se deve supor, no caso deles, que a morte é definitiva. a menos quando lhes cravam a estaca no peito. O eleitor de São Paulo se recusou neste domingo a este gesto categórico. Serra volta ao Parlamento no leito daquela convicção de que ali ele pode se sair melhor do que disputando eleições majoritárias com o apoio do melífluo cardeal Scherer, do aeróbico padre Marcelo e do sulfuroso pastor Malafaia.

Ganhou de um apagado Eduardo Suplicy e com o apoio daquele eleitorado conservador que em São Paulo – pelo menos parte dele – continua lutando a batalha separatista de 1932 e rejeitando todo e qualquer progresso social que inclua os pobres, os minoritários e os excluídos.

A ironia é que, em teoria, José Serra está do lado contrário. Ou esteve. Prova disso é o livro que publicou este ano – Cinquenta Anos Esta Noite, Ed. Record – em que o ex-líder dos universitários dá a sua versão do golpe de 1964. O que Serra descreve iria arrepiar os pelos mais íntimos daqueles golpistas prosissionais que, no entanto, o elegem.

Não existia nenhum projeto de rompimento democrático por parte da esquerda, diz Serra – rebatendo a lenda renitente, propagada pelos gorilas de 1964 e repetida pelos gorilas de 2014, de que o governo Goulart e seus aliados comunistas preparavam a instalação de uma “república bolivariana”, perdão, uma “república sindicalista”. Nem havia esse projeto nem haveria como implantá-lo, na disparatada correlação de forças nas quais as armas de guerra e as tintas de impressão estavam do lado da direita.

O enredo da farsa é antigo mas ainda assombra muita gente. O Serra de 64 se alinhou com a verdade. Ao de 2014, fantasma ressurreto, talvez seja demais pedir isso.