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Política

Corrupção

Lava Jato mira Vaccari, Bancoop e OAS

por Redação — publicado 27/01/2016 12h38, última modificação 27/01/2016 12h41
Condomínio Solaris, no Guarujá (SP), onde família de Lula teria tríplex, pode ter sido usado por ex-tesoureiro do PT para lavar dinheiro
Marcelo Camargo / Agência Brasil
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João Vaccari Neto em depoimento à CPI da Petrobras, em abril: ele segue como alvo da Lava Jato

A relação da empreiteira OAS com a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, a Bancoop, está no centro da 22º fase da Operação Lava Jato, denominada Triplo X e deflagrada nesta quarta-feira 27 pela Polícia Federal. 

Para os investigadores, apartamentos do Condomínio Solaris, no Guarujá, litoral de São Paulo, podem ter sido usados para repassar propina obtida em contratos com a Petrobras. Eventualmente, a investigação pode respingar no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pois sua família seria proprietária de um tríplex no Solaris.

O Solaris virou alvo da Lava Jato por dois motivos. Em primeiro lugar, por ter sido um dos poucos empreendimentos da Bancoop assumidos pela OAS que foi, de fato, construído. O acerto entre as duas empresas ocorreu em 2009, quando a Bancoop, em dificuldades financeiras, entregou diversos de seus projetos à OAS. Em 2013, o condomínio no Guarujá ficou pronto, enquanto vários outros continuam com as obras paradas. 

Em segundo lugar, o empreendimento no litoral paulista chama a atenção porque alguns dos apartamentos estão ligados a parentes do ex-tesoureiro do PT e ex-presidente da Bancoop João Vaccari Neto, que além de condenado na Lava Jato é investigado por desviar dinheiro da cooperativa para campanhas eleitorais do PT. Entre os parentes de Vaccari que teriam apartamentos no Solaris estão sua mulher, Giselda Rousie de Lima, e sua cunhada, Marice Corrêa de Lima.

Outro dos apartamentos do Solaris, um tríplex, pertence à Murray Holdings, uma empresa offshore aberta pela Mossack Fonseca & Corporate Services, sediada no Panamá. Essa empresa foi usada por alguns dos alvos da Lava Jato, como os ex-funcionários da Petrobras Renato Duque e Pedro Barusco, para abrir contas no exterior. A área de atuação da Mossack é, segundo a PF a lavagem de dinheiro, uma empreitada que extrapola as investigações da Lava Jato e aparece em outras operações da Polícia Federal. 

O mesmo tríplex que tem a Murray Holdings como proprietária aparece nos autos da investigação como pertencente à publicitária Nelci Warken, que teria continuado a praticar "atos típicos de proprietária" mesmo após a offshore registrar o apartamento como sua propriedade. 

Warken, que pode ser uma laranja de uma pessoa ainda não identificada, segundo os investigadores, foi uma das suspeitas presas nesta quarta-feira 27. Além dela, foram presos Ricardo Onorio Neto e Renata Pereira Brito, funcionários da Mossack Fonseca, e conduzidos coercitivamente para prestar depoimentos Eliana Pinheiro de Freitas e o venezuelano Rodrigo Andrés Cuesta Hernandez, também funcionário da Mossack Fonseca. 

Maria Mercedes Riano Quijano, administradora da Mossack Fonseca, e Ademir Auada, responsável pela Murray Holdings, não foram encontrados, mas há mandados de prisão preventiva contra os dois. Outro venezuelano funcionário da Mossack, Luis Fernando Hernandez Rivero, também é procurado.

Lula e o Solaris

Durante a entrevista coletiva realizada após a deflagração da 22ª fase da Lava Jato, o delegado Igor Romário de Paula e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima indicaram que todos os apartamentos do Solaris são alvo de investigação da força tarefa da Lava Jato.

"Entendemos que todos os apartamentos devam ser investigados. Não estamos focando somente no apartamento da Nelci ou eventualmente alguns envolvendo familiares de Vaccari", disse Lima, completado por De Paula: “Todo o empreendimento está sob investigação.”

No caso do ex-presidente Lula, sua mulher, Marisa Letícia, possui uma cota de participação referente a um apartamento no Solaris. De acordo com o Instituto Lula, após a conclusão do empreendimento pela OAS, em 2013, todos os cooperados puderam optar por pedir ressarcimento do valor pago ou comprar um apartamento no empreendimento. Naquele período, informou o instituto em dezembro de 2014, a ex-primeira dama não optou por nenhuma das alternativas. Em novembro último, entretanto, a família de Lula informou ao jornal Folha de S.Paulo que desistiu da opção de compra.

Também em novembro, o mesmo jornal afirmou que a OAS fez uma reforma de 700 mil reais na unidade reservada à família de Lula, que incluía a construção de um elevador privativo e de uma nova escada. No mês seguinte, a Folha afirmou que um dos sócios de uma empresa que executou a reforma no tríplex paga pela OAS afirmou em depoimento que encontrou no local Marisa Letícia, um de seus filhos, Fábio Luís, o "Lulinha", e Léo Pinheiro, então presidente da OAS. 

Com base nessas informações, e em depoimentos que apontariam a presença de familiares de Lula no tríplex, o promotor de Justiça de São Paulo Cassio Conserino anunciou no último fim de semana que tem base para denunciar Lula e Marisa Letícia por lavagem de dinheiro, mesmo antes de ouvir a defesa dos dois. O Instituto Lula anunciou que examina as medidas que serão tomadas diante do que considera ser uma "conduta irregular e arbitrária do promotor". 

Nesta quarta-feira 27, uma fala de Carlos Fernando dos Santos Lima indica que a defesa de Lula terá trabalho com o desenrolar da Lava Jato. Além de confirmar que a força-tarefa da Lava Jato trabalha em conjunto com o MP de São Paulo, Lima disse haver indícios de que mesmo nas unidades em que o direito de compra não foi exercido, caso de Marisa Letícia, "as pessoas estão de posse do apartamento".