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Política

Operação Lava Jato

Gerente da Petrobras que fez denúncias teria sido ameaçada, diz jornal

por Redação — publicado 12/12/2014 13h53
Ainda segundo reportagem, Venina Velosa da Fonseca informou Graça Foster, hoje presidente da estatal, em 2011 a respeito de irregularidades em Abreu e Lima
Antônio Cruz / Agência Brasil
Graça Foster

Graça Foster durante audiência no Senado em abril. Ela se tornou presidente da Petrobras em 2012

Uma gerente da Petrobras que fez denúncias a respeito de algumas das irregularidades investigadas na Operação Lava Jato, antes de a Polícia Federal e o Ministério Público Federal começarem a apurar os desvios, foi afastada de seu cargo na estatal e ameaçada de morte, segundo reportagem do jornal Valor Econômico.

De acordo com o jornal, a geóloga Venina Velosa da Fonseca, gerente da Petrobras e funcionária da empresa desde 1990, começou a fazer denúncias internas em 2009, referentes a contratos, licitações e compras irregulares, até ser destituída de seu cargo, em 19 de novembro, em meio a medidas tomadas após a repercussão da Operação Lava Jato. No dia seguinte, em e-mail enviado para a atual presidente da Petrobras, Graça Foster, Fonseca relatou todas as denúncias feitas no passado, inclusive à própria Graça Foster, e contou ter sido ameaçada. "Ao lutar contra isso [os desvios], fui ameaçada e assediada. Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive", escreveu. De acordo com o jornal, Fonseca foi abordada no Catete, bairro do Rio de Janeiro, e ouviu a recomendação "de que ficasse quieta."

A reportagem conta que a primeira denúncia feita por Venina Velosa da Fonseca foi a respeito de contratos de comunicação, firmados com valores muito acima dos previstos. Fonseca teria procurado seu superior, o então diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, denunciado pelo MPF como operador político do esquema de corrupção na estatal. Segundo o jornal, Costa "apontou o dedo para o retrato do presidente Lula e perguntou se ela queria 'derrubar todo mundo'. A denúncia foi encaminhada ao então presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, e culminou com a descoberta de desvios de ao menos 58 milhões de reais e na demissão do então diretor de Comunicação da Petrobras, Geovanne de Morais, que é filiado ao PT, segundo o Valor.

A segunda denúncia feita por Fonseca se refere à construção da refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE). A obra, cujo orçamento inicial foi ampliado em cerca de 18 bilhões de reais, é o principal foco da investigação da PF e do MPF no âmbito da Operação Lava Jato. Segundo o Valor, em 2009 Fonseca fez 107 solicitações para modificar projetos da refinaria que não foram aceitas. Ela ainda teria recomendado mudanças na forma como as licitações eram realizadas e nas cláusulas dos contratos, de maneira a desonerar a Petrobras. Após as denúncias, a geóloga deixou o cargo de gerente, sob Paulo Roberto Costa, e transferida para Cingapura onde "lhe pediram que não trabalhasse e foi orientada a fazer um curso de especialização", segundo o jornal. Neste momento, afirmou Fonseca segundo a reportagem, Costa "levantou um brinde, apesar de dizer ser pena não poder me exilar por toda a vida".

Dois anos depois, em outubro de 2011, Venina Fonseca enviou e-mail a Graça Foster, então diretora de Gás e Energia, afirmando que os ocorridos na áreas de Abastecimento e Comunicação eram "um verdadeiro absurdo", pois técnicos lutavam por mudanças para evitar irregularidades, mas "o que acontecia era o esquartejamento do projeto e licitações sem aparente eficiência". No texto, ela se oferecia para entregar provas da corrupção a Graça Foster. O jornal não esclarece se houve e qual foi a resposta da atual presidente da Petrobras à correspondência.

Em nota, a Petrobras também não faz este esclarecimento, mas diz que apuração interna sobre Abreu e Lima "concluiu as apurações e encaminhou o Relatório Final para os órgãos de controle e autoridades competentes."

A terceira denúncia de Fonseca se refere a irregularidades na compra de combustível para navios, denominados bunkers. Em 2012, após passar cinco meses no Brasil sem ter funções a desempenhar, a geóloga voltou para Cingapura como chefe do escritório da Petrobras no país asiático, diz o Valor. Lá, ela constatou que a Petrobras estaria tendo prejuízos de até 15% nos valores do negócio por conta de irregularidades e desvios. A denúncia foi encaminhada a José Carlos Cosenza, substituto de Paulo Roberto Costa na diretoria de Abastecimento da Petrobras. No inquérito da Lava Jato, a PF chegou a questionar diversos dos executivos de empreiteiras presos sobre Cosenza, mas depois afirmou tratar-se de um engano, pois não há elementos contra ele. A reportagem do Valor afirma nada foi feito a respeito das denúncias encaminhadas por Fonseca sobre os bunkers. Em nota, a Petrobras respondeu que "aprimorou os procedimentos de compra e venda com a implementação de controles e registros adicionais".

Abaixo, a íntegra da nota enviada pela Petrobras:

Nota à imprensa

A Petrobras esclarece que, em relação à matéria publicada no Valor Pro de 11/12/2014, sob o título "Diretoria da Petrobras foi informada de desvios de bilhões em contratos", instaurou comissões internas em 2008 e 2009 para averiguar indícios de irregularidades em contratos e pagamentos efetuados pela gerência de Comunicação do Abastecimento. O ex-gerente da área foi demitido por justa causa em 03 de abril de 2009, por desrespeito aos procedimentos de contratação da companhia. Porém, a demissão não foi efetivada naquela ocasião porque seu contrato de trabalho estava suspenso, em virtude de afastamento por licença médica, vindo a ocorrer em 2013. O resultado das análises foi encaminhado às autoridades competentes.

Em relação aos procedimentos na área de Bunker, após resultado do Grupo de Trabalho constituído em 2012, a Petrobras aprimorou os procedimentos de compra e venda com a implementação de controles e registros adicionais. Com base no relatório final, a Companhia adotou as providências administrativas e negociais cabíveis. A Petrobras possui uma área corporativa responsável pelo controle de movimentações e auditoria de perdas de óleo combustível, que não constatou nenhuma não conformidade no período de 2012 a 2014.

Como mencionado em comunicados anteriores, a Comissão Interna de Apuração constituída para avaliar os processos de contratações para as obras da RNEST concluiu as apurações e encaminhou o Relatório Final para os órgãos de controle e autoridades competentes.

Assim, fica demonstrado que a Companhia apurou todas as informações enviadas pela empregada citada na matéria.