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Em 2006, Temer discutiu "mensalão" com cônsul dos EUA

por Redação — publicado 13/05/2016 10h45, última modificação 13/05/2016 10h46
Interino disse que PSDB e PFL não atacaram Lula porque mantinham as mesmas práticas corruptas
Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Lula e Temer

Lula e Temer em 2014: a frágil aliança ruiu

Duas correspondências diplomáticas trocadas em 2006 entre o então cônsul dos Estados Unidos em São Paulo, Christopher J. McMullen, e o Departamento de Estado norte-americano e divulgadas pelo Wikileaks revelam a fragilidade da aliança entre o PT e o PMDB, que sustentou as duas eleições de Dilma Rousseff, e alguns bastidores dos esquemas de corrupção existentes no Brasil.

O primeiro dos encontros ocorreu em 9 de janeiro daquele ano e foi relatado por McMullen a Washington dois dias depois.

Na conversa, escreveu o embaixador, Temer afirmou que a eleição de Lula em 2002 "gerou muita esperança" na população brasileira, mas classificou a atuação do petista como "decepcionante" e criticou a "visão limitada" de Lula e seu "foco excessivo em programas de proteção social que não promovem crescimento ou desenvolvimento econômico".

Ainda segundo Temer, em uma referência óbvia ao "mensalão", escândalo que derrubou líderes do partido como José Dirceu e José Genoino, "alguns líderes petistas roubaram dinheiro público, não para ganho pessoal, mas para aumentar o poder do partido, e fomentaram muita desilusão na população".

A crise do "mensalão", segundo disse Temer ao cônsul dos EUA, abria uma oportunidade para o PMDB lançar candidato próprio ao Palácio do Planalto.

Naquele momento, Anthony Garotinho, Germano Rigotto e Nelson Jobim eram cotados pelo partido, mas Temer cogitava uma "re-fusão" com o PSDB (que surgiu do PMDB em 1988) em torno dos nomes de José Serra e Geraldo Alckmin, que disputavam a nomeação tucana.

PSDB e PFL tinham as mesmas práticas do "mensalão"

Meses depois, em 19 de junho de 2006, Temer voltou a se encontrar com McMullen. Naquela data, Temer afirmou ao cônsul norte-americano que apesar de José Dirceu e de toda a liderança do PT "terem sido arrastados pelo escândalo" do "mensalão", o então presidente da República tinha "emergido pessoalmente mais ou menos ileso". 

Em parte, disse Temer, isso ocorreu porque outros partidos políticos, como o PSDB e o PFL (hoje DEM) – e o próprio PMDB, segundo acrescentou McMullen a seus superiores em Washington – "tinham, em momentos diferentes, estado envolvidos em escândalos semelhantes ao famigerado esquema de suborno do 'mensalão' do PT, e, assim, não estavam ansiosos para expor ao máximo os malefícios do PT."

Neste cenário, escreveu o cônsul, o PMDB seguia dividido sobre apoiar o PT ou o PSDB, mas Temer pertencia ao campo "anti-Lula" e era "altamente crítico" do campo pró-Lula no PMDB, que incluía Renan Calheiros e José Sarney.

O PMDB na visão do cônsul dos EUA

Na conversa com o cônsul dos EUA, Temer também deixou clara sua insatisfação com a parceria entre o PT e o PMDB, evidenciada nos últimos meses, em particular na famigerada carta enviada a Dilma em dezembro passado.

Uma das reclamações se dá a respeito dos ministérios, nos quais o PMDB podia nomear ministros, mas não tinha "controle real" sobre a pasta. O PMDB deveria ter "controle total" sobre alguns ministérios, disse Temer, e responder por seu sucesso ou fracasso.

Para o cônsul, "o tipo de controle que Temer vislumbra também daria ao PMDB, e a outros partidos aliados, a oportunidade de avançar seus objetivos de favorecimento político às expensas dos pagadores de impostos". O PMDB, escreveu ainda o cônsul, "é bem conhecido como um veículo de favorecimento político".

Em um comentário final, o cônsul Christopher J. McMullen afirma que Temer estava correto ao dizer que quem vencesse as eleições de 2006 precisaria da ajuda do PMDB, mas afirma que "o problema real é que o PMDB não tem ideologia ou plataforma política que possa trazer para a tarefa de formular e implementar uma agenda política nacional coerente".

Ainda segundo o cônsul dos EUA, o PMDB se transformou qme uma "coalizão solta de caciques regionais oportunistas que, em sua maioria – e há exceções – buscam o poder político apenas pelo poder". Tal partido político, afirma McMullen, "dificilmente é capacitado para a tarefa de fornecer uma orientação política, o que seria particularmente importante em uma aliança pós-eleitoral com o desgovernado PT de Lula".