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Política

Pacto de Paris

Dilma leva tema do impeachment à ONU

por André Barrocal publicado 22/04/2016 13h16, última modificação 26/04/2016 18h29
Com mídia estrangeira a favor, Dilma leva tema à ONU; Michel Temer se preocupa com eventual exclusão do Mercosul
Ichiro Guerra/PR/Fotos Públicas
Dilma Rousseff em discurso à ONU

Perante 130 chefes de Estado, presidenta dedicou 40 segundos de seu discurso ao impeachment em abertura de cerimônia de assinatura de acordo climático em Nova York

Dilma Rousseff levou o impeachment à Organização das Nações Unidas (ONU), em discurso nesta sexta-feira 22 perante cerca de 130 chefes de Estado, em outro lance no “front externo” da guerra sobre sua cassação.

Um front no qual a presidenta tem tido mais sorte, ao angariar simpatia da mídia e de organismos estrangeiros, para constrangimento da oposição e do vice-presidente Michel Temer.

Na sede da ONU, a hospedar uma cerimônia de assinatura de um novo pacto global sobre o clima, o Acordo de Paris, Dilma dedicou 40 segundos de um total de 5 minutos ao “grave momento que vive o Brasil”. Não usou, porém, a palavra “golpe”

Povo brasileiro saberá impedir qualquer retrocesso, diz Dilma na ONU from Agência Brasil on Vimeo.

 O País, disse, “soube vencer o autoritarismo e construir uma pujante democracia” e, hoje, tem um “povo trabalhador e com grande apreço pela liberdade”. “Saberá, não tenho dúvidas, impedir quaisquer retrocesso. Sou grata a todos os líderes que expressaram a mim sua solidariedade.”

Integrante da comitiva presidencial que foi a Nova Iorque, sede na ONU, o assessor especial do Palácio do Planalto para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, acredita que há um golpe de Estado em curso no Brasil com potencial para desestabilizar toda a América do Sul. 

Garcia fez chegar sua avaliação a Thomas Shannon, o Subsecretário de Assuntos Políticos do ministério das Relações Exteriores, lá batizado de Departamento de Estado. Ele planejara ficar nos EUA para conversar pessoalmente com Shannon, mas, após a agenda na ONU, Dilma pediu-lhe que fosse ao Equador para reunir-se na União de Nações Sul-Americana (Unasul).

Shannon é casado com uma brasileira e já foi embaixador em Brasília. Três dias depois da aprovação do impeachment na Câmara, recebeu o senador oposicionista Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado.

O tucano disse à imprensa ter viajado aos EUA a pedido de Michel Temer, com o objetivo de rebater o discurso do golpe.

Herdeiro da Presidência em caso de impeachment, Temer está preocupado com a disseminação internacional da ideia de um golpe no Brasil. Seus assessores têm reunido informações sobre, por exemplo, a possibilidade de o País ser suspenso do Mercosul, na hipótese de Dilma ser deposta.

A suspensão é uma ameaça real e já foi mencionada pela chanceler da Argentina, Susana Malcorro. O Paraguai já foi excluído do bloco por um tempo graças, segundo Dilma, a um golpe parecido com aquele em andamento por aqui.

O Brasil também está ao alcance de sanções da Organização dos Estados Americanos, com base na Carta Democrática da entidade. O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, foi a Brasília e reuniu-se com Dilma no mesmo dia em que a Câmara começou a debater o impeachment em plenário.

Segundo o uruguaio, não há razões jurídicas, políticas e éticas para cassar a mandatária.

A posição de uma entidade com a OEA tem ajudado a imprensa internacional a ser receptiva aos argumentos do governo Dilma de que o impeachment avança sem motivos consistentes.

A norte-americana CNN, uma das emissoras de TVs com maior repercussão mundial, noticiou que Dilma está sendo cassada por corruptos.

Para o jornal britânico The Guardian, Dilma está prestes a ser cassada por um “Congresso hostil e manchado de corrupção”, e o impeachment tem o objetivo de acabar com o combate à corrupção, uma referência aos desejos secretos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O jornal espanhol El Pais também destaca negativamente o papel de Cunha, descrito como “sintoma da estrutura moral de boa parte do Congresso brasileiro”, e o paradoxo de Dilma estar em vias de ser cassada mesmo não sendo acusada de enriquecimento ilítico, ao contrário dos detratores dela.

A revista alemã Der Spiegel classificou a aprovação do impeachment na Câmara de “A insurreição dos hipócritas”.

A revista britânica The Economist, notória crítica do governo Dilma, sugeriu novas eleições no País pois, se a presidenta “traiu” o País, a classe política como um todo fez o mesmo.